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Contato

  • Foto do escritor: Belfort Filho
    Belfort Filho
  • 7 de jan.
  • 10 min de leitura

Atualizado: 10 de jan.

Enfim comprovamos: há vida inteligente em outros planetas. Sempre a buscamos, trabalhando nos limites do desenvolvimento tecnológico humano, mas tudo que conseguimos foi a sensação crescente e perturbadora de estarmos sozinhos no universo.

Em 25 de fevereiro de 2027, o dia não começou com a história que conhecíamos como verdade. “Fizemos contato”, então descobrimos que, de fato, há muito tempo “eles” se comunicam ativamente com os humanos. Mas ...


“Fizemos contato”
“Fizemos contato”

Capítulo 1: 1 ano antes


— Filho da puta!

— Fez merda novamente, Antoni?

— Claro que não, Evelyn! Meu computador reiniciou sozinho, acho que perdi alguns dados.

— Computadores não reiniciam sem permissão, você fez merda novamente. Onde anda com a cabeça, Antoni?

— Me deixe quieto, vou tentar ver o tamanho do prejuízo!

— Deixe de ser dramático, sei que sua máquina está configurada para salvamento automático. Vou pegar uma água.

— Evelyn, pode trazer um café para mim?

Ela saiu sem dar sinal algum se traria ou não o café. O trabalho no ALMA não pode ser considerado monótono, apesar da rotina quase inflexível. Apontar as 66 antenas do interferômetro para uma região do espaço, avaliar os sinais de rádio captados com detalhes sem precedentes. O céu a 5000 metros de altitude é perfeitamente limpo no planalto de Chajnantor, no Chile. O objetivo do trabalho de Antoni e Evelyn é explorar o universo em comprimentos de onda antes inacessíveis, abrindo novas perspectivas para a compreensão da formação de estrelas, galáxias e planetas.

— Qual a temperatura lá fora? — Perguntou Antoni.

— Nesse momento, –5ºC. Por quê? Quer dar uma volta de bicicleta sob as estrelas?

— Seria bem bonito, mas estou apenas calibrando as antenas de 12 metros. Abaixo de – 6 ºC pode haver incoerência de feixe por contração do metal.

— Como se eu não soubesse disso — Evelyn falou com desdém não legítimo.

— Acho que não perdi muita coisa! Mas não consigo me livrar desse ruído. Veja!

— Desculpe, não estou curiosa! Rode o RSS e faça o de sempre — Evelyn demonstrou real desinteresse pela solicitação de Antoni.

— Esse é o problema, já fiz isso duas vezes.

— Faça uma terceira!

Antoni resolveu arquivar os dados para corrigir o problema depois. Tomou um gole do café, abandonou as três telas em que estava trabalhando e se dirigiu a uma grande parede de vidro que permitia a visão da enorme quantidade de antenas do ALMA. O céu negro repleto de estrelas era sempre fantástico. Não era raro ele dedicar vários minutos àquela paisagem. A sensação era sempre a mesma, apesar da paz que despertava, a incapacidade de compreender o seu papel no universo era inquietante.

— “Assim na terra como no céu”, “assim em cima como embaixo” — Antoni falou quase que sem perceber.

— Está rezando? Ela perguntou.

— Talvez fosse mais fácil. Não sei onde estamos — falou calmamente mantendo o olhar fixo no horizonte e mergulhando em suas sensações.

— Você está aqui no planalto de Chajnantor, no Deserto do Atacama, no Chile, não é? Você está bem?

— “Assim na terra como no céu”, “assim em cima como embaixo” ...  expressões equivalentes a essas encontramos em praticamente todas as culturas. Elas surgiram inexplicavelmente no passado, em várias localidades do mundo, em períodos semelhantes, sem que houvesse contatos efetivos entre esses povos. Não vejo condição estatisticamente significativa para isso ter ocorrido ao acaso — Antoni falava sem tirar os olhos do horizonte. — Olho para essa imensidão e me sinto uma subpartícula desprezível perdida no espaço. O pior é pensar que todo o universo que consigo compreender parece ser uma fração infinitesimal de tudo que existe. Não sou nada. Mas, caso a existência dos táquions seja comprovada, para essas partículas meu corpo se aproximaria bastante do infinito. Não sei se estou acima ou abaixo, desconheço se estou na terra ou no céu. Sei lá ... um vazio angustiante.

— Acho que a solidão desse lugar está te afetando. Por que veio para cá? Poderia utilizar os dados do ALMA de praticamente qualquer local que desejasse.

— Acho que sempre busquei exatamente isso. Sentir esse isolamento, essa imensidão ... é tudo parte de uma busca, como se faltasse alguma coisa aqui dentro — ele falou sem desviar o rosto, mas agora observando Evelyn pelo reflexo no vidro. — E qual foi o motivo que trouxe a Evelyn para cá?

— A Evelyn não quer responder — ela falou com bastante ironia na voz.

— Ok, é quase meia-noite e o Antoni quer dormir — ele falou retribuindo a ironia da amiga saindo para seu alojamento.

Mas não conseguiu dormir. Abriu o notebook e começou a abrir sites sem relevância aparente, em uma ação repetitiva de busca por informações curtas, um comportamento de usuários de redes sociais.

Mais de quarenta minutos se passaram sem nada o prender a atenção efetivamente. Mas mantinha a ação condicionada de ler as primeiras linhas de temas diversos encontrando basicamente nada ... até ver a expressão “energia sutil”, que prendeu sua atenção por bem mais que alguns segundos.

De alguma maneira, todo o firmamento — objeto de suas observações por tantos anos — sempre lhe passara a percepção de ser um infinito incompleto. Planetas, estrelas, nebulosas, a luz em sua velocidade inalcançável ... todo o universo que Antoni conhecia era baseado em números seguidos de uma quantidade absurda de zeros, uma escala superlativa para tudo. O tempo, um engodo aos sentidos, é sempre mensurado em milhões ou bilhões de anos; distâncias são consideradas em anos-luz; massas são calculadas tomando como referência a massa do sol ou da própria terra; corpos celestes em um balé regido pela interação gravitacional ... e, mesmo assim, o universo era simplesmente incompleto.

Talvez essa fosse literalmente a percepção que o levou para a astronomia.

O conceito de energia sutil era fisicamente o oposto de toda sua formação. Subpartículas infinitesimais eram exatamente o oposto de toda a grandiosidade a que estava habituado a encarar no trabalho e ainda assim eram quase a mesma coisa. Fisicamente, nada era novidade. Possuía conhecimento profundo das grandezas físicas. O incrível era a sensação de familiaridade que as palavras “energia sutil” despertavam em sua mente. Era como se o universo, com toda sua vastidão e brutalidade matemática, escondesse uma camada invisível, uma frequência silenciosa indetectável à tecnologia atual, mas que, de alguma forma, foi capaz de despertar sua atenção — ou mesmo intuição.

A energia sutil não é medida em escalas astronômicas, não se dobra às leis da física clássica; é tênue e quase imperceptível e, talvez, vibre nas entrelinhas do espaço-tempo.

Antoni percebeu que olhava pela primeira vez para algo maior que apenas a vastidão teoricamente infinita do universo. Levou para a cama e para seus sonhos aquele novo conjunto de percepções.

Na manhã seguinte, Antoni despertou com estranha leveza e clareza no pensar. Não havia sonhos claros nem informações distintas da noite anterior. Apenas uma sensação persistente, como se algo dentro dele tivesse sido reorganizado. Permaneceu deitado por alguns minutos, com os olhos fixos no teto e a mente divagando pelos infinitos acima e abaixo do ambiente de suas interações físicas.

Sentou-se na borda da cama, plantou os pés no chão frio, sentindo-o como uma novidade sensorial. Havia bem mais que números quantificando o ambiente ao seu redor. Tudo eram frequências em ressonância — dos buracos negros supermassivos aos glúons — nada além de uma interação brutal de frequências. O universo deveria ser mais que matéria em movimento: era interação, integração e sabedoria. A matemática não está errada; apenas ainda não foram descobertos os recursos pelos quais ela nos mostrará a verdade.

Antoni retornou à sala de monitores. Pesquisando nos arquivos digitais do ALMA, descobriu que o ruído persistente que o incomodava já era conhecido desde o ano de 2012, na fase de testes, antes mesmo de sua inauguração.

— Brigou com a cama? Evelyn perguntou com a nítida intenção de assustá-lo.

— Você sabia que esse ruído que já é registrado pelo ALMA desde a fase de testes — ele respondeu sem susto, quase mecanicamente.

— Bom dia para você também — Evelyn falou desapontada com a indiferença de Antoni. — Vou preparar um café. Não é estranho um defeito tão antigo nunca ter sido corrigido?

— Isso não é um defeito! — ele falou pondo a mão no queixo enquanto aproximava o rosto do monitor.

Sua expressão foi tão intensa que Evelyn desistiu do café e se aproximou do monitor ao lado do amigo.

— Evelyn, isso é um sinal!



Capítulo 2: Tau Ceti: O Chamado


— Por favor, Dr. Antoni, você está me dizendo que fizemos contato com homenzinhos de marte?

— Me desculpe, qual o seu nome? — Antoni perguntou, já com alguma impaciência na voz.

— Lesley, repórter da CBS.

— Senhorita Lesley, acredito que deva ser nova na CBS. Os repórteres de lá costumam ser bem mais preparados. Quanto à sua pergunta, a resposta é sim e não. Sim, fizemos contato! E não, não são homenzinhos de marte. Na realidade, eles tentam contato com a terra e já faz bastante tempo, mas não tínhamos tecnologia para perceber o que ocorria.

— Quando menciona “bastante tempo”, o que isso significa? Quem são eles? Estão falando de onde? O que estão dizendo?

— Pelo que identifiquei, desde 2012. Mas pode ter ocorrido antes. Não sabemos quem são e ainda não entendemos o que dizem. O sinal veio do sistema Tau Ceti — uma estrela anã amarela, tipo Sol, localizada na constelação de Cetus, a aproximadamente 11,9 anos-luz da Terra. É uma das estrelas mais próximas que podemos observar a olho nu. Possui muitos exoplanetas, incluindo alguns na zona habitável e ..., mas isso é para os estudiosos. Não quero dar uma aula aqui. O fato é que a região parece com nosso sistema solar. Está astronomicamente bem próxima, sim — mas distante demais para uma geração humana. A senhorita seria avó quando recebêssemos uma resposta.

— Se vocês não sabem o que dizem, como chegaram à conclusão de que estão dizendo alguma coisa? — Lesley interrompeu.

Antoni olhou profundamente nos olhos da repórter. Não era uma pergunta necessariamente estúpida, mas o tom da fala assim como a expressão facial dela, lhe despertavam enorme aversão.

— Porque, senhorita Lesley, há uma diferença entre ruído e intenção. E esse sinal ... tem intenção. Na realidade, senhorita, ele está gritando!

— Não entendo quando utiliza o termo: gritando!

— Matemática, senhorita! Matemática.

— Uma última pergunta — Lesley falou com voz mais firme. — Qual a participação da equipe do Allen Telescope Array nessa descoberta?

— Não tenho lembrança de ter mencionado nada sobre esse telescópio — Antoni respondeu contrariado. — Sem mais perguntas — completou investigando os olhos da repórter.

Antoni havia trabalhado por meses depois da descoberta do “ruído”. Sua intuição dizia que não se tratava de um viés técnico. Suas noites se transformaram em momentos de profunda aflição onde os sonhos incorporavam imagens sequenciais incompreensíveis em repetições intermináveis.

Evelyn, observando a mudança comportamental do colega, apresentou a ele uma fórmula matemática bem conhecida entre os criptoanalistas. Em parte, desejava retirá-lo daquele quadro angustiante de procura inespecífica, mas optou por um recurso distinto. Uma fórmula matemática era um valioso instrumento de comunicação que poderia desviá-lo da compulsão sem parecer que estava tentando dissuadi-lo.

Ela possuía Doutorado em Matemática Pura pela École Normale Supérieure (Paris), uma excepcional capacidade de observação experiência prévia com criptografia quântica antes de migrar para astrofísica aplicada.

A fórmula foi escrita em um guardanapo de papel, jogado sobre o teclado do computador enquanto saía para pegar um café. Ele observou o guardanapo com enorme perplexidade. O que estava escrito era mais que uma fórmula — algo semelhante estava presente nos seus sonhos, mas de forma incompreendida. Nos sonhos, o cérebro não processa ou compreende a escrita devido a baixa atividade das áreas de Broca e Wernicke. Naquele instante, olhando para o guardanapo, Antoni conseguiu conectar as imagens de seus sonhos com uma linguagem matemática.

— Isso é brilhante, Evelyn! — surpreendendo a amiga que retornava com duas xícaras de café. Observe!

 Depois disso, com o suporte de Evelyn, a evolução para decifrar parcialmente “o ruído” foi enormemente acelerada.

[\mathcal{I}(S) = \sum_{i=1} ^{n} \left [\φ_i \cdot \log_2(ρ_i) + \α \cdot \δ T_i + \β \cdot \ω_i \right]]

“A intenção de um sinal é a soma da consciência multiplicada pela raridade de sua localização, somada a intenção que vibra no tempo, somada ao conhecimento que molda sua forma”.

Os dois trabalharam com bastante sobre “a mensagem” que antes era tratada como um simples ruído. Também Evelyn apresentou uma atitude compulsiva em decifrar a mensagem. Estava claro como água: a comunicação existia. Mas dois pontos principais precisavam ser trabalhados — o conteúdo da mensagem e o lapso temporal. Segundo a matemática, a mensagem que tentavam decifrar havia sido enviada há quase 12 anos. Uma simples saudação e resposta envolveriam quase um quarto de século.

— Não podemos falhar, Evelyn!

— Então é melhor não divulgar nada antes de compreender plenamente esse código, assim como a real intenção desses seres — ela falou com real preocupação na voz. — Pessoas com recursos financeiros podem tentar manipular esse primeiro contato. Não acha?

 

O primeiro grande passo foi obtido ao traduzir uma transmissão repetida em padrões rítmicos com variações matemáticas indicando a intenção.

◉ ∴ ⧫ ⊕ ✶ ≈

Estamos aqui. Queremos comunicar. Somos conscientes. Desejamos compartilhar conhecimento em paz.”

— Uma civilização hostil utilizaria o mesmo argumento de outra que venha em missão de paz, tenho certeza — Antoni comentou, preocupado após os momentos iniciais de euforia.

— Uma civilização hostil chegaria aqui sem nada avisar, a surpresa é uma premissa bélica — ela falou mordiscando um sanduiche de atum. — Um ladrão não comunica o dia do assalto.

— Apenas uma das premissas bélicas — Antoni respondeu. — O inimigo declarado é previsível. Já o falso aliado ataca quando a guarda está baixa.

Argumentações e contra argumentações se repetiram por dias sem que isso viesse a minar a cooperação entre os dois. Pelo contrário, a cada dia trabalhavam com maior afinidade.

— Achei aquela repórter muito espertinha nas perguntas que fez — Evelyn falou com um sorriso malicioso no rosto. — Lesli, não é?

— Acho que você comeu atum demais. Ela sequer mostrou postura de uma profissional preparada para uma entrevista tão relevante. E o nome dela é Lesley.

— Está vendo? Vocês, homens, são de uma ingenuidade brutal. Ela conseguiu marcar território em sua mente — Evelyn falou forçando um sorriso. — Mais de doze repórteres dirigiram perguntas a você e oito deles eram mulheres. Me diga o nome de qualquer um deles.

— Ah, não prestei atenção — ele respondeu sinceramente sem tirar os olhos da tela.

— Ela está aí dentro dessa cabeça. Uma boa altura, lindos cabelos castanhos ondulados, olhos intensos e atentos... posso até dizer que ela é gostosa e ... deixa pra lá — Evelyn fez uma pausa, sem entender a própria postura. — Ela não é apenas uma repórter, cuidado!

— Meu Deus! — Antoni falou olhando para um conjunto de palavras no monitor.

— O Antoni achou alguma coisa? — ela perguntou com sua tradicional ironia.

— Estava trabalhando aqui naquele segundo conjunto da mensagem. O que se repete 77 vezes depois das 7 repetições do primeiro. Olhe:

◉ ∴ ⧫ ⊕ ✶ ≈

⧫ ⧫ ⧫ ∴ ✶

∞ ◉ ⊕ ⊕ ⊕

⊕ ✶ ⧫ ≈ ∴

 

“Estamos aqui. Queremos comunicar. Somos conscientes. Desejamos compartilhar conhecimento em paz.

Três consciências. Uma intenção. Um saber.

Somos antigos. Estamos aqui. Oferecemos. Oferecemos. Oferecemos.

Compartilhamos sabedoria, vida e harmonia. Queremos comunicar.”

— Acredita nisso, Evelyn? — não podemos errar na resposta.

— Qual a sua idade, Antoni?

— Quarenta e sete anos.

— Você só vai saber se acertou ou não na resposta quando tiver setenta ou setenta e um anos — ela falou com o queixo apoiado sobre a mão esquerda com o rosto muito próximo ao monitor.


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