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Crônicas
Entre palavras e silêncios, há histórias que só a crônica revela. Um olhar afiado sobre o cotidiano, com humor, afeto e surpresa. Descubra o extraordinário escondido no comum.


Faixa de pedestres
Faixa de pedestres O semáforo vermelho irá tomar mais alguns minutos do tempo que já não disponho. Estendida à minha frente, a faixa de pedestres é o tapete para um sem-número de apressados anônimos. Existem momentos de contemplação em que o tempo se modifica para aprimorar a percepção, como que permitindo uma visão quadro a quadro de uma realidade que, de outra forma, passaria despercebida diante dos olhos, enquanto a própria realidade estaria parada. Uma mulher franzina é
Belfort Filho
há 3 dias3 min de leitura


A madrugada pela janela
A madrugada pela janela Os tempos eram outros. Tempos em que a paz e as estradas permitiam viagens noturnas demasiadamente tranquilas. Tempos em que os ônibus interestaduais possuíam janelas com cortinas que podiam e deviam ser abertas durante as viagens. O ar da noite entrava por essas janelas em rajadas de vento frio que faziam tremular fortemente as cortinas de tecido grosso. O saudosismo daquelas viagens me reencontrou pelo olfato, o ar que entrava trazendo consigo o ch
Belfort Filho
há 3 dias3 min de leitura


Quando o Verdão era verde
Verdão Não tenho, agora, a menor pretensão de fazê-los sentir o que umas doses de Old Parr e um DVD dos Paralamas do Sucesso conseguiram fazer ao me permitirem rever experiências caríssimas que vivi naquele estádio poliesportivo conhecido por “Verdão”; eu não conseguiria. Na verdade, toda emoção começava com a compra dos ingressos, o que ocorria sempre alguns dias antes de cada show. Existia uma ansiedade mágica naquela expectativa. Em todos os dias que antecediam cada espe
Belfort Filho
há 5 dias4 min de leitura


Vereda do Meio
Vereda do Meio A reminiscência é de 1991, julho de 1991, para ser mais preciso. Somávamos sete garotos, um deles meu irmão, nos dirigindo a um recanto nos arredores de Castelo do Piauí, chamado “Vereda do Meio”. Até então desconhecia a existência de uma pequena serra naquela região do estado. Meus dezoito anos tornavam qualquer empreitada promissora. Apinhamo-nos confortavelmente numa caminhonete F1000, modificada com ar-condicionado e vidros fumê, de Teresina a Castelo do
Belfort Filho
há 6 dias8 min de leitura


Morena de Brasília
Morena de Brasília O mar torna tudo mais sensual. Mas sua pele moreno-clara não precisava do mar para ser sensual. Caprichosamente, o mar estava lá. Morena de Brasília à beira-mar. Pelos dourados na pele certamente macia de suas coxas. Sentada, contemplando o mar, abraçando os joelhos, com o vento esvoaçando seus cabelos em bronze cacheados. Não precisava dos olhos cor de mel, mas eles estavam lá como um exagero caprichoso da sedução. Tornozeleira na perna esquerda, os lind
Belfort Filho
9 de fev.2 min de leitura


São João na Rua das Flores
São João na Rua das Flores Eu era menino em meados dos anos oitenta e o mês era junho. Tudo que eu queria era fazer uma fogueira naquele dia. Era cerca de três horas da tarde quando fui dar uma volta pelas ruas do bairro, procurando madeira para alimentar minha primeira fogueira. Curiosamente, quase nada havia de conotação com as festas juninas. O período era apenas uma justificativa para eu fazer uma fogueira. A Rua das Flores, minha rua, era coberta por um seixo bastante
Belfort Filho
9 de fev.6 min de leitura


Boate Tucanus
Boate Tucanus Em 1993 ou 94, não consigo precisar o ano, fui conhecer a capital maranhense. Fiquei hospedado na casa de um senhor extremamente simpático e bastante hospitaleiro, de nome José. Cheguei a sua casa por volta das dezoito horas e fui prontamente acomodado no quarto de um dos seus filhos, que somente chegaria na tarde do dia seguinte; jantei e dormi como uma pedra. Como de costume, acordei bem cedo, creio que por volta das cinco horas da manhã e ninguém havia acor
Belfort Filho
29 de jan.8 min de leitura


Bicho-papão
Bicho-papão A aparente normalidade é, muitas vezes, a melhor forma de camuflar uma adversidade existencial e esse disfarce encontra, frequentemente, acolhida na expectativa que todos têm de encontrar o natural; “normalmente vemos o que almejamos ver”. Dizem que a vida de qualquer um daria um livro. Mas certamente existem livros que são mais intrigantes que outros e o que vou contar me foi narrado pela personagem principal de uma dessas vidas. Neste momento, sinto a necessid
Belfort Filho
29 de jan.5 min de leitura


Frivioca no Rejeito
Frivioca no rejeito Estava eu no “azulão” — ambulatório do Hospital Getúlio Vargas —quando um senhor veio na minha direção e, respeitosamente, retirou seu chapéu de palha da cabeça recostando-o sobre o peito enquanto fazia um cumprimento de cabeça: — Senhor, eu queria verter água! À época, minha mãe traduziu a informação incompreendida por mim; o senhor precisava ir ao banheiro e eu precisava entender aquele regionalismo. Assim iniciei meu convívio com graciosas expressõe
Belfort Filho
26 de jan.3 min de leitura


Água de Coco
Ou a curiosidade me é um defeito inato que não consegui reparar até então ou a vida teima em me apresentar “causos” tão mirabolantes que poderiam aparecer na trama de uma tela de TV. Uma terceira opção, no entanto, surge como anti-inflamatório para minha autocrítica. Gosto de pensar que sou excelente observador e pronto! Gosto mais de mim assim! Então, vamos aos fatos. Começo pela difícil missão de correlacionar uma volta de “bike” com uma complicada investigação de paternida
Belfort Filho
21 de jan.4 min de leitura


O vigia e os "trombadinhas leprosos"
A essência da criatura humana habita um lugar móvel, que muda conforme o olhar de quem observa — nuances que percebemos vez ou outra. Posso dizer que tudo aconteceu na Rua Áurea Freire durante uma Semana Santa que ocorreu entre os anos de 1996 e 1999; perdoem-me a imprecisão. Gosto de contemplar o nascer do sol seja na cidade ou à beira-mar, embora tenha especial apreço pelo segundo. O relógio ainda não acusava as sete horas da manhã quando resolvi passear pela rua. Afirmo q
Belfort Filho
13 de jan.7 min de leitura


Elevador
A sacola plástica com duas latas de feijão verde, algumas batatas, vinte quiabos, tomates, cebolas, pimentas e um pacote de corante pesava na minha mão esquerda. Chamei o elevador de serviços e esperei. Existe sempre um leve suspense diante das portas de um elevador; nunca sabemos quem ou o que aparecerá lá dentro. O sinal sonoro toca e as portas se abrem; ele chega vazio e isso é meio bom. Poderia ter vindo a senhora antipática do 405; ela reclama de tudo e sempre pede provi
Belfort Filho
11 de jan.3 min de leitura


Panfletagem
PESSOAS SÃO PESSOAS e existem de todas as formas e índoles. As índoles são segredos escondidos tão profundamente que nem mesmo o dono de uma conhece sua real essência. Já as formas são como cartões de visita que, quando expostos aos olhos de terceiros, se submetem ao crivo de quem olha. Pessoas são assim; não me compete julgá-las. Uma vida é feita de momentos e momentos são caracterizados por fatos. O fato que me ponho a relatar ocorreu durante os breves instantes de espera e
Belfort Filho
8 de jan.4 min de leitura


Em um Banco da Avenida
COISAS DA IDADE! Tênis, short e camisa leve para começar mais uma caminhada. Menos prazer que obrigação; o ofício maçante é uma necessidade do corpo quarentão. Seis quilômetros em um percurso de um e meio quilômetro, que comecei exatamente pelo meio. A ação é intencional, não gosto de começar pelo início nem de terminar pelo final. Hoje comecei indo para o lado direito. Não será assim na próxima vez. Alonguei a perna esquerda para contornar uma tal de “canelite” e comecei a p
Belfort Filho
7 de jan.4 min de leitura


A Velha Corcunda
A Velha Corcunda Eis que me ponho a lembrar de uma senhora corcunda que costuma passar pelas redondezas. A curvatura acentuada na porção superior de sua coluna forma um considerável monte por sobre sua pá direita — escápula — e a obriga a voltar eternamente a face para o chão enquanto anda. Não bastasse tal mazela, outra lastimável curva de sua coluna a entorta fortemente para a esquerda. Pobre senhora, pênsil para frente e para o lado e o lado ainda tinha que ser o esquerdo?
Belfort Filho
7 de jan.3 min de leitura
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