Elevador
Atualizado: 12 de jan.

A sacola plástica com duas latas de feijão verde, algumas batatas, vinte quiabos, tomates, cebolas, pimentas e um pacote de corante pesava na minha mão esquerda. Chamei o elevador de serviços e esperei. Existe sempre um leve suspense diante das portas de um elevador; nunca sabemos quem ou o que aparecerá lá dentro. O sinal sonoro toca e as portas se abrem; ele chega vazio e isso é meio bom. Poderia ter vindo a senhora antipática do 405; ela reclama de tudo e sempre pede providências demais para quem não se presta a cumprir as normas do condomínio. Para piorar, usa bolinhas de naftalina em suas gavetas — um horror olfativo.
Entro no elevador, pressiono o botão do décimo segundo andar, as portas se fecham e ouço o exaustor entrar em funcionamento. O elevador vem com cheiro de pernil de porco assado; alguém do prédio terá um excelente almoço — será que fará um baião de dois para acompanhar? Adoro pernil de porco assado com baião de dois de feijão verde.
Ele já diminui a velocidade no primeiro andar. Quem entrará? As portas se abrem e surge a senhora antipática do 405, que já inicia, sem nem mesmo dizer bom dia, uma lista de reclamações, principalmente, contra uma senhora idosa do 901 — essa última é um doce de criatura, uma típica vovozinha de filmes da Sessão da Tarde, que ostenta sempre um sorriso afável no rosto e palavras doces no vocabulário. Puro despeito, nenhuma daquelas queixas faz sentido.
Fico olhando para a câmera no teto do elevador. Certamente o porteiro deve estar sorrindo, mesmo sem ouvir nada, ele sabe o que estou passando aqui com esta criatura naftalinizada. O falatório da velha parece não ter fim e, para piorar, o elevador também para no terceiro andar. Uma pessoa com carrinho de supermercado cheio avalia a capacidade do cubículo e comunica que esperará o seu retorno, sob a desculpa de que não comporta a todos nós — ela também deve estar fugindo da velha.
A porta se fecha e novamente se abre para a saída da indesejada senhora do 405. Livre e sozinho afinal. O silêncio é uma dádiva necessária após tal experimentação.
Estou subindo, com algum leve solavanco lateral e com o roncado suave dos motores daquela máquina criadora de encontros breves e imprevisíveis. Mas o elevador para novamente no sétimo andar. Novo breve suspense enquanto as portas se abrem. Ninguém entrou, exceto o forte cheiro de peixe frito que invade meu transportador vertical; acho que é cavalinha frita.
Alugaram o 904; espero que sejam bons vizinhos. Na realidade, pouco ou nada importa. Não conheço praticamente nenhum morador desse prédio, além das figuras exóticas; nenhuma por nome, apenas conheço os números de seus apartamentos ou andares.
Nem sempre, porém, o elevador transporta moradores. Lembro-me de uma visitante inesquecível, uma linda mulher que entrou no elevador. Não bastasse ser linda, era tão elegante quanto perfumada. Uma daquelas mulheres que aparentam se mover em câmera lenta ou, quem sabe, o tempo para para elas, perdoem a repetição. Quando as portas se abriram, com um murmurar suave de lábios, quase inaudível, ela desejou uma boa tarde, entrou apertando o número do andar que desejava chegar e ficou pouco a minha frente, porém, de lado para mim. Seu perfume inundou todo meu cérebro. Não que fosse um perfume forte, era suave e marcante como sua presença. Um rabo de cavalo no alto da nuca — altura perfeita — permitia a visualização do magnífico pescoço.
Quanto daquele buquê olfativo viria daquele pescoço? Nunca vou saber, mas dediquei cada segundo a desfrutar de sua presença. Ela, entretanto, dedicava toda atenção ao celular. As mãos perfeitas e perfeitamente cuidadas dedilhavam o aparelho com graciosa velocidade e precisão, quando o elevador parou e, para meu desespero, a linda visitante se foi, permitindo-me contemplar seu andar sinuoso, gracioso, fêmeo, sexy, de maravilhosas curvas contidas em um sortudo jeans, tudo isso no breve intervalo de tempo em que as portas novamente se fecharam.
As portas reabrem, retorno à sanidade e tranquilidade previsível do meu apartamento.





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