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A chuva
Majestosas nuvens escuras trouxeram consigo a chuva. O calor diminuiu em parte. O cheiro da terra molhada invadiu maravilhosamente o ar. Uma “desvontade” invadiu o corpo. Não a indisposição de quem é avesso ao trabalho – não uma preguiça. Uma pausa ao corpo cansado, apenas. O barulho da água que pinga nas folhas das árvores me entorpece aos poucos. O turbilhão de obrigações que, em sequência, fervilhavam na mente vai perdendo sua importância. Contemplar é imperativo! A chuva
Belfort Filho
3 de jun.3 min de leitura


Vento
O vento trouxe um cheiro bom. Inspirei. Minha infância entrou pelas minhas narinas. Vi a mão de minha mãe mexendo a panela com uma colher de pau. Ouvi o ranger cadenciado dos armadores da rede de meu pai a cada balanço. Minha irmã mais nova correu para o quarto contrariada com alguma infantilidade; os outros dois continuaram assistindo He-man. O cachorro corria no quintal. Expirei. Minha infância saiu pelas minhas narinas.
Belfort Filho
3 de jun.1 min de leitura


Natalício e Guardamento
Sim, existem aqueles momentos inqualificáveis. Momentos em que quaisquer descrições seriam insuficientes. Então vamos lá. Uma grande amiga me comunicou sobre o falecimento de sua querida tia. Confesso, esse é um período intrigante da vida. Não faz muito tempo, comemorávamos a aprovação no vestibular dos amigos e não demorou para chegar ao período dos casamentos. Quando lembro ... casamentos apareciam aos montes. Primeiros casamentos, segundos casamentos e até uma amiga doida
Belfort Filho
2 de jun.2 min de leitura


Faixa de pedestres
Faixa de pedestres O semáforo vermelho irá tomar mais alguns minutos do tempo que já não disponho. Estendida à minha frente, a faixa de pedestres é o tapete para um sem-número de apressados anônimos. Existem momentos de contemplação em que o tempo se modifica para aprimorar a percepção, como que permitindo uma visão quadro a quadro de uma realidade que, de outra forma, passaria despercebida diante dos olhos, enquanto a própria realidade estaria parada. Uma mulher franzina é
Belfort Filho
23 de fev.3 min de leitura


A madrugada pela janela
A madrugada pela janela Os tempos eram outros. Tempos em que a paz e as estradas permitiam viagens noturnas demasiadamente tranquilas. Tempos em que os ônibus interestaduais possuíam janelas com cortinas que podiam e deviam ser abertas durante as viagens. O ar da noite entrava por essas janelas em rajadas de vento frio que faziam tremular fortemente as cortinas de tecido grosso. O saudosismo daquelas viagens me reencontrou pelo olfato, o ar que entrava trazendo consigo o ch
Belfort Filho
23 de fev.3 min de leitura


Quando o Verdão era verde
Verdão Não tenho, agora, a menor pretensão de fazê-los sentir o que umas doses de Old Parr e um DVD dos Paralamas do Sucesso conseguiram fazer ao me permitirem rever experiências caríssimas que vivi naquele estádio poliesportivo conhecido por “Verdão”; eu não conseguiria. Na verdade, toda emoção começava com a compra dos ingressos, o que ocorria sempre alguns dias antes de cada show. Existia uma ansiedade mágica naquela expectativa. Em todos os dias que antecediam cada espe
Belfort Filho
21 de fev.4 min de leitura


Vereda do Meio
Vereda do Meio A reminiscência é de 1991, julho de 1991, para ser mais preciso. Somávamos sete garotos, um deles meu irmão, nos dirigindo a um recanto nos arredores de Castelo do Piauí, chamado “Vereda do Meio”. Até então desconhecia a existência de uma pequena serra naquela região do estado. Meus dezoito anos tornavam qualquer empreitada promissora. Apinhamo-nos confortavelmente numa caminhonete F1000, modificada com ar-condicionado e vidros fumê, de Teresina a Castelo do
Belfort Filho
20 de fev.8 min de leitura


Um eterno segundo
Um eterno segundo Umas crianças brincavam no lago. Eu apenas contemplava a paisagem. Apontei minha máquina e capturei o tempo! Gotas de água suspensas no ar refletindo para sempre a mesma luz. Gotas que jamais cairão. Aquelas crianças terão sempre a mesma idade. Sempre estarão desfrutando da água quente e límpida do lago. O companheirismo pueril está em cada movimento estático. O companheirismo pueril estará em cada movimento estático. Anos depois, continuo admirado com a cen
Belfort Filho
10 de fev.1 min de leitura


Morena de Brasília
Morena de Brasília O mar torna tudo mais sensual. Mas sua pele moreno-clara não precisava do mar para ser sensual. Caprichosamente, o mar estava lá. Morena de Brasília à beira-mar. Pelos dourados na pele certamente macia de suas coxas. Sentada, contemplando o mar, abraçando os joelhos, com o vento esvoaçando seus cabelos em bronze cacheados. Não precisava dos olhos cor de mel, mas eles estavam lá como um exagero caprichoso da sedução. Tornozeleira na perna esquerda, os lind
Belfort Filho
9 de fev.2 min de leitura


São João na Rua das Flores
São João na Rua das Flores Eu era menino em meados dos anos oitenta e o mês era junho. Tudo que eu queria era fazer uma fogueira naquele dia. Era cerca de três horas da tarde quando fui dar uma volta pelas ruas do bairro, procurando madeira para alimentar minha primeira fogueira. Curiosamente, quase nada havia de conotação com as festas juninas. O período era apenas uma justificativa para eu fazer uma fogueira. A Rua das Flores, minha rua, era coberta por um seixo bastante
Belfort Filho
9 de fev.6 min de leitura


Réveillon
Nas primeiras horas de um novo ano. O mar chiava em ondas ao lado. Pernas das calças arregaçadas. Pés andando na areia da manhã. Eu estava lá. Pouco mais de 6h da manhã. Andando com minha esposa. As taças descansavam harmonicamente naquele cenário. Anônimos, talvez, as tivessem abandonado. Feliz ano novo!
Belfort Filho
30 de jan.1 min de leitura


Boate Tucanus
Boate Tucanus Em 1993 ou 94, não consigo precisar o ano, fui conhecer a capital maranhense. Fiquei hospedado na casa de um senhor extremamente simpático e bastante hospitaleiro, de nome José. Cheguei a sua casa por volta das dezoito horas e fui prontamente acomodado no quarto de um dos seus filhos, que somente chegaria na tarde do dia seguinte; jantei e dormi como uma pedra. Como de costume, acordei bem cedo, creio que por volta das cinco horas da manhã e ninguém havia acor
Belfort Filho
29 de jan.8 min de leitura


Bicho-papão
Bicho-papão A aparente normalidade é, muitas vezes, a melhor forma de camuflar uma adversidade existencial e esse disfarce encontra, frequentemente, acolhida na expectativa que todos têm de encontrar o natural; “normalmente vemos o que almejamos ver”. Dizem que a vida de qualquer um daria um livro. Mas certamente existem livros que são mais intrigantes que outros e o que vou contar me foi narrado pela personagem principal de uma dessas vidas. Neste momento, sinto a necessid
Belfort Filho
29 de jan.5 min de leitura


Frivioca no Rejeito
Frivioca no rejeito Estava eu no “azulão” — ambulatório do Hospital Getúlio Vargas —quando um senhor veio na minha direção e, respeitosamente, retirou seu chapéu de palha da cabeça recostando-o sobre o peito enquanto fazia um cumprimento de cabeça: — Senhor, eu queria verter água! À época, minha mãe traduziu a informação incompreendida por mim; o senhor precisava ir ao banheiro e eu precisava entender aquele regionalismo. Assim iniciei meu convívio com graciosas expressõe
Belfort Filho
26 de jan.3 min de leitura


Torneira Aberta
Torneira Aberta Pingo, pingo, pingo e outro pingo. Absorto, não consigo levantar, mais um pingo! Mais um pingo pinga depois de outro. Desperdício em gotas, que pingam uma após a outra. Desperdício do tempo que passa gota a gota. O coração bate no peito; bate na pia, a gota. Do coração, o som que faz, só ouço tum, tum. Da gota que cai, o som que faz, só ouço poim, poim. Parou? Um silêncio cheio que invade os ouvidos. Não um silêncio atrás do outro, apenas o silêncio. Silên
Belfort Filho
22 de jan.1 min de leitura


Pingos
Pingos A chuva cai mansa lá fora, chiando nos telhados vizinhos, petelecando sobre meu teto. Teco, teco, teco: são esses os petelecos! Pingos e seus petelecos! Agora mais próximos uns dos outros, e a chuva não é mais tão mansa! O vento agora açoita a janela. Gotas escorrem pelo vidro, bailando ao sabor do vento. Umas teimam pela fresta e teimosamente me encontram a testa! De olhos fechados, vejo o vento chicotear as árvores! Vejo as verdes folhas molhadas em movimentos frenét
Belfort Filho
21 de jan.2 min de leitura


Água de Coco
Ou a curiosidade me é um defeito inato que não consegui reparar até então ou a vida teima em me apresentar “causos” tão mirabolantes que poderiam aparecer na trama de uma tela de TV. Uma terceira opção, no entanto, surge como anti-inflamatório para minha autocrítica. Gosto de pensar que sou excelente observador e pronto! Gosto mais de mim assim! Então, vamos aos fatos. Começo pela difícil missão de correlacionar uma volta de “bike” com uma complicada investigação de paternida
Belfort Filho
21 de jan.4 min de leitura


Olhar
Eis que surge o teu olhar, doce e meigo olhar. Olhar furtivo e anônimo que surge na multidão. Acidente de percurso, ou talvez predestinação. Não importa, do teu rosto meigo salvei o olhar. Mulher linda e voluptuosa que observo passar, Linda anônima parte dessa gente em turbilhão, Que pela curta calçada desfila em minha direção, Começando nosso breve caso de um único olhar. Vejo agora bem de perto a graça do teu desfilar. Pé ante pé, sinto que teu andar é pura tentação. O
Belfort Filho
15 de jan.1 min de leitura


O vigia e os "trombadinhas leprosos"
A essência da criatura humana habita um lugar móvel, que muda conforme o olhar de quem observa — nuances que percebemos vez ou outra. Posso dizer que tudo aconteceu na Rua Áurea Freire durante uma Semana Santa que ocorreu entre os anos de 1996 e 1999; perdoem-me a imprecisão. Gosto de contemplar o nascer do sol seja na cidade ou à beira-mar, embora tenha especial apreço pelo segundo. O relógio ainda não acusava as sete horas da manhã quando resolvi passear pela rua. Afirmo q
Belfort Filho
13 de jan.7 min de leitura
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