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Boate Tucanus

  • Foto do escritor: Belfort Filho
    Belfort Filho
  • 29 de jan.
  • 8 min de leitura


Boate Tucanus

 

Em 1993 ou 94, não consigo precisar o ano, fui conhecer a capital maranhense. Fiquei hospedado na casa de um senhor extremamente simpático e bastante hospitaleiro, de nome José. Cheguei a sua casa por volta das dezoito horas e fui prontamente acomodado no quarto de um dos seus filhos, que somente chegaria na tarde do dia seguinte; jantei e dormi como uma pedra.

Como de costume, acordei bem cedo, creio que por volta das cinco horas da manhã e ninguém havia acordado. Fui para a sala, liguei a TV bem baixinho para não acordar ninguém e, pela primeira vez, tive contato com as músicas da Tribo de Jah; meus anfitriões somente viriam a acordar após as oito horas da manhã, quando meu estômago já implorava pelo café da manhã.

Avançando um pouquinho no tempo, quando a tarde chegou, conheci o dono do quarto no qual eu estava hospedado; ele se chamava Neto. O “Neto”, com visível afabilidade, iniciou nossa conversa me convidando para, naquela mesma noite, conhecer uma boate “maneira”, segundo ele, da capital São Luís. Aceitei prontamente, embora com um pouco de estranhamento, e acertamos sair por volta das vinte e trinta horas. Aquele viria a ser o prenúncio de uma noite inesquecível!

À hora acordada, ele me perguntou “se eu já estava preparado”. Respondi prontamente que sim!

— Cadê? — ele me perguntou me sondando da cabeça aos pés. Desejava ver algo que definitivamente eu não compreendia!

Com um olhar de reprovação, ele balançou negativamente a cabeça dizendo:

— Rapaz, isso aqui não é Teresina, não! — falou isso enfiando a mão em uma gaveta do seu guarda-roupa.

— Tome! — foi a palavra que pronunciou enquanto arremessava para mim um revólver em aço fosco, calibre trinta e oito, de cinco tiros.

Nunca havia segurado algo parecido até então e não gostei da experiência. Não senti em momento algum a sensação de poder que muitos afirmam ter quando seguram uma arma pela primeira vez.

— Bicho, quero isso não! — minhas mãos imediatamente ficaram suadas com o artefato belicoso próximo de mim. Devolvi imediatamente aquela coisa como se fosse uma bomba pronta para explodir!

— Tudo bem, não se preocupe, vou “arrumado” por nós dois — falou-me isso prendendo no cós da calça uma pistola que acabara de tirar da mesma gaveta.

Naquele momento, fiquei realmente preocupado com os possíveis desfechos para a noite. Ele era um rapaz bem mais maduro que eu, com jeito bastante bruto e aspecto físico bem próximo de um índio. Para completar, sempre falava muito alto em qualquer situação; gritava mesmo. Caso pense que eu estava desconfortável com o conjunto dos fatos, está certo!

 Enfim, chegou a hora de sair e fomos para o carro. O veículo era um Chevrolet Veraneio, modelo 1985, tunado de cor grafite metálico e estava muito bem conservado, por sinal. Primeira boa impressão que tive na noite, gostei bastante da máquina. Certamente gastaram muito dinheiro nas modificações daquele veículo. Por alguns instantes, esqueci as características da minha companhia, enquanto admirava o carro, até que, em determinado momento do percurso, o Neto começou a me apresentar os pontos turísticos da cidade.

Na realidade, ele insistentemente me advertiu de que São Luís possuía poucos atrativos, muita violência e era, portanto, necessário tomar cuidado durante os passeios. Confesso que aquela conversa somente serviu para aumentar minha ansiedade e intranquilidade. Por fim, chegamos a um local bastante movimentado. A visão das muitas garotas à porta despertou em mim um real objetivo para a noite que se iniciava. Descemos do carro e começamos a andar em direção à entrada.

— Neto! Você esqueceu de fechar os vidros do carro! — comuniquei ao meu anfitrião falastrão, porém, a resposta me deixou ainda mais intrigado.

— Não se preocupe, nesse carro aí ninguém mexe não! — falou com um sorriso sarcástico no rosto e uma piscada de canto de olho de gelar os ossos!

Ali eu tive a certeza de que meu anfitrião era alguém potencialmente perigoso e poderoso naquele ambiente. Em uma cidade sabidamente violenta, alguém que não precise se preocupar com o carro que dirige deve ter relativa influência. Bom, mais uma vez, tentei eliminar as informações que me afligiam a mente e continuei a marcha ao lado do cara do Chevrolet Veraneio, o “inviolável”.

Entramos na fila de acesso à boate e pude ver, piscando em neon vermelho e verde, o letreiro: “Boate Tucanus”. Muitas lindas meninas gargalhavam e conversavam no lento fluir da fila. Belas pernas, corpos em vestidos apertados se apresentavam à noite como deliciosas promessas de lasciva diversão.

Porém, a tensão da noite teimava em ressuscitar a cada novo evento e um fato gerador de tensão encarnou na figura de um homem à frente da fila com um detector eletrônico de metais, fazendo a revista de todas as pessoas que entravam na boate. As pernas tremeram como se fosse eu algum criminoso.

 Imediatamente imaginei quantos problemas poderiam surgir em função da pistola que estava com o Neto. Quantos desses problemas resvalariam em mim? Existe uma diferença significativa entre desejo e necessidade. Eu desejava muito estar na segurança da minha casa em Teresina; necessitava muito de um banheiro naquele momento. Mas, o não previsível e inesperado, novamente se mostrou presente. Ao chegar a vez do Neto, o segurança o cumprimentou cordialmente sem sequer fazer a revista e o colocou para dentro da boate. Em seguida, então, pôs a mão imponentemente no meu peito, interrompendo o meu deslocamento. O Neto, ao perceber o movimento do segurança, apontando para mim, disse com aquele sorriso sarcástico anteriormente descrito:

— Ei, chegado! Ele está comigo!

Também entrei sem ser revistado!

— Piauí, a casa é sua! Divirta-se! Aqui você está seguro! Falou para mim alegremente, deixando-me sozinho, enquanto foi conversar com alguns dos seus conhecidos.

Confesso que, pela primeira vez desde que conheci aquela figura enigmática, percebi que ele estava realmente se sentindo em casa e isso, de certa forma, também me deixou um pouco mais relaxado. Peguei uma cerveja e, explorando o ambiente com os olhos, comecei a curtir a música e observar as pessoas que dançavam na pista.

Uma ou duas cervejas depois e bem mais relaxado que antes, identifiquei uma mulher linda que estava elegantemente a tomar algum “drink” de cor avermelhada. Ela estava sozinha em uma das pequenas mesas no entorno da pista. Parece clichê dizer isso, mas era uma linda loira em um vestido vermelho, que parecia ter sido feito sob medida para ela, deixando seus ombros à mostra. As pernas, graciosamente curvadas para o lado, deixavam os belos tornozelos a fermentar o meu desejo; magníficos pés. Fiz como se faz na minha terra, “fui falar com a gata”! Atrevimento e insensatez típicos da pouca idade.

— Posso? — perguntei insinuando que gostaria de dividir a mesa com a loira de vermelho.

De perto, o deleite foi ainda maior e proporcional à inquietação emergente. Menos de um segundo foi necessário para identificar a perfeição e harmonia do seu rosto, principalmente pelas curvas dos perfeitos lábios com batom vermelho.

— Sim, pode! — ela me respondeu menos surpresa do que encafifada com minha atitude.

Consegui ler em seus olhos, olhos em um rosto bastante sorridente, a mensagem subliminar e nada verbal que dizia: “Garoto, você não sabe o que está fazendo!”. Se a eternidade existe, ela começou no exato momento em que, pelo olhar da mulher de vermelho, pressenti a confusão que acabara de criar para mim. Imediatamente, olhei em volta e identifiquei vários homens que estavam nervosamente a apontar o indicador na minha direção enquanto falavam entre si. A loira sorridente, por sua vez, se mostrava bastante tranquila e receptiva à minha presença; pura manifestação de uma das vaidades femininas.

Confesso que o ambiente muito rapidamente me fez perder todo interesse naquela linda fêmea. Um sopro de inteligência, tardiamente, me veio à mente: mulheres como a loira de vermelho não estariam sozinhas na noite! Uma outra vez sondei o ambiente, e um dos homens que me observavam falava ao ouvido de outro que parecia ser “o dono do lugar”, enquanto apontava para o Neto.

Poucos instantes depois estavam conversando com “o dono do lugar”, o Neto e três outros homens de feições nada amistosas.

— Cacete! — falei baixinho por entre os dentes, enquanto tomava um enorme gole da cerveja que segurava com a mão direita. Eu sabia que a situação era complicada para mim, só não tinha a menor noção do que poderia me acontecer em um futuro imediato. Porém, percebi mais uma vez surgir no rosto do Neto aquele sorriso sarcástico já bastante conhecido por mim. Enquanto tocava as costas do “dono do lugar”, ele falava algo do tipo: deixa comigo!

Confesso que durante essa eternidade angustiante, não mais compreendia absolutamente nenhuma das palavras da minha interlocutora e tão pouco conseguia identificar detalhe algum de seu rosto; ela se tornara um apêndice borrado dos “meus últimos momentos”!

O Neto fez um gesto para mim pedindo que fosse ao seu encontro. Pedi licença à linda jovem de vermelho e fui falar com o grupo que me avaliava todas as atitudes. As pernas tremiam e a bexiga outra vez desejava me trair. Mesmo assim, consegui me erguer. Fui em direção àquele grupo com os sentimentos de um animal no caminho do abatedouro.

— Piauí, quero te apresentar “um chegado meu”.

O Neto me falou isso enquanto “o dono do lugar” me estendia a mão e ostentava um sorriso indescritivelmente enigmático no rosto.

— Seja bem-vindo a nossa cidade! O Neto me disse que é a primeira vez que vem aqui, não é? — “o dono do lugar” me falou como se fosse especialista em desvendar a alma alheia e continuou segurando e apertando a minha mão.

— Sim, é minha primeira vez aqui em São Luís. Estou gostando muito! — falei tentando manter a calma e externar alguma cordialidade, enquanto me lembrava das palavras que o Neto me havia dito um pouco mais cedo. Realmente São Luís não era Teresina!

— A casa é sua, se precisar de alguma coisa é só falar comigo ou com qualquer um dos meus funcionários. Gente do Neto é gente minha!

O “dono” falou isso me apresentando aos homens que há pouco me avaliavam a conduta naquele local. Agradeci e ficamos em relativo silêncio, por alguns segundos.

Não consigo precisar quanto tempo de silêncio transcorreu até que o Neto me chamou para pegar mais uma cerveja. Não nego que senti algum alívio de sair da companhia daquelas figuras. Mas o alívio não demorou. O Neto começou a me explicar uns fatos que me fizeram desejar pegar o primeiro ônibus de volta para Teresina.

— Rapaz, sabe aquela “gata” que você estava conversando? Ela é a “mina” do “meu chegado”!

Um frio me percorreu o interior dos ossos e compreendi o significado de sumir o chão sob os pés, mas continuei a ouvir.

— Escolha qualquer outra para conversar, mas esqueça aquela “mina”. Meu chegado é um “cara pesado” aqui da cidade. Ele mexe com umas “coisas diferentes” aqui na região e quem ele não gosta costuma virar estrume rapidinho.

Quanto mais o Neto falava, mais vontade eu tinha de sumir chão adentro! Por fim, manifestei meu enorme desejo de ir embora.

— Que é isso, cara? Fique tranquilo. Ele entendeu que você não é da área e não sabia como as coisas funcionam por aqui. Amigo meu é rei aqui! Aqui, hoje, você não pede, você manda e eles fazem, só não olhe para aquela “mina”, ok? Aproveite, vou aqui falar com outros chegados.

Fiquei sozinho novamente!

Sem saber o que fazer, busquei uma das mesas no entorno da pista de dança, em um cantinho escuro da boate, e passei o resto da noite encarando a latinha de cerveja vazia sobre a minha mesa, sem conseguir nem mesmo olhar para qualquer pessoa presente naquele estabelecimento; acho que sobrevivi!

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