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Quando o Verdão era verde

  • Foto do escritor: Belfort Filho
    Belfort Filho
  • 21 de fev.
  • 4 min de leitura
Verdão
Verdão

 

Não tenho, agora, a menor pretensão de fazê-los sentir o que umas doses de Old Parr e um DVD dos Paralamas do Sucesso conseguiram fazer ao me permitirem rever experiências caríssimas que vivi naquele estádio poliesportivo conhecido por “Verdão”; eu não conseguiria. Na verdade, toda emoção começava com a compra dos ingressos, o que ocorria sempre alguns dias antes de cada show. Existia uma ansiedade mágica naquela expectativa.

Em todos os dias que antecediam cada espetáculo, eu abria a carteira plástica com velcro — cafona — e conferia cada letra do bilhete, “reconferia” o horário de cada apresentação, planejava a ida e antecipava, em pensamentos, uma parte do prazer que certamente viria. Mas a sinestesia de fato aflorava quando entrávamos pelas portas que davam acesso à quadra daquele estádio, onde sons, cores e cheiros determinavam as batidas do coração. Os acessos superiores permitiam contemplar, lá embaixo, a quadra com o palco armado em um dos polos. No polo oposto, sempre ficava a mesa de som, que se conectava ao palco por meio de cabos pretos que atravessavam a quadra e eram vigorosamente pisoteados durante os eventos.

Enquanto descíamos as escadas de concreto entre as arquibancadas, buscávamos avidamente encontrar nossos amigos que sabíamos que estariam por lá; jovens vivem, brigam e se divertem em bando. O dinheiro do lanche da escola que fora guardado por alguns dias servia tanto para a compra dos ingressos como para comprar umas latinhas de cerveja, que tinham o poder de avivar a percepção.

O piso de madeira polida e caprichosamente encerado nos esperava lá embaixo. Um misto de sons e luzes envolvia o corpo e realçava a percepção do momento pré-show. Sorrisos e flertes eram embalados pelo som das músicas que inebriavam toda aquela expectativa. O show do Paralamas do Sucesso — como magnífico exemplo — foi precedido pelo som mecânico do Led Zeppelin — The Rover —, enquanto imagens de carros de corrida eram projetadas nos dois telões que ladeavam o palco; um dos “shows” de melhor qualidade e potência musical que havia visto até a época. Os acordes do Led fizeram cada pelo do meu corpo quase pular fora da pele. O arrepio prazeroso daquele gozo musical foi incrível. Eu e meu irmão gritávamos e pulávamos como loucos; como se aquele momento fosse o último a ser aproveitado.

Vejo, hoje, que embora não tenha sido o último, foi realmente único, como foram únicas as emoções de cada show desfrutado. Todos eles foram únicos e nunca se repetiram — todos foram únicos!

Quando as luzes se apagavam, todos nos apinhávamos o mais próximo possível do palco. Queríamos estar juntos dos nossos ídolos do meio musical. No caso dos Paralamas do Sucesso, um acorde de teclado que iniciou bem baixo foi aumentando progressivamente até quase estourar nossos tímpanos. O som era de uma frequência tão baixa que sentíamos o peito vibrar e quase que entrar em ressonância com nossos corações. Subitamente, o palco explodiu em rajadas de fogo direcionadas para cima e um som de primeiríssima qualidade teve início com um solo de bateria do Barone, reforçado pelo baixo do Bi Ribeiro; o Herbert ainda andava. O som foi perfeito.

“O cara do isopor” — o homem que percorria a quadra vendendo cervejas semifrias no isopor equilibrado habilmente na cabeça — sustentava etilicamente nosso ânimo. O empurra-empurra era inevitável, como também era inevitável, de tão próximo, sentir o perfume dos cabelos das garotas que nunca davam bola para a gente. Um verdadeiro calvário de adolescente! Vez ou outra, nós cantávamos em uníssono as letras que sabíamos de cor — na verdade, conhecíamos cada timbre de todas as músicas daquelas bandas. Os preciosos minutos se passavam rápidos demais para os nossos gostos. Mas o prazer era indescritível, até que Herbert disse:

— Valeu, moçada! Fiquem com Deus e até a próxima!

As luzes se apagaram e imediatamente todos nós começamos a bater fortemente os pés no piso de madeira, gerando um som digno de um terremoto, ao tempo em que pedíamos:

— Mais um! Mais um! Mais um! Mais um! Mais um! Mais um!

Fazíamos isso em todos os shows. Os Paralamas voltaram e tocaram “O Beco”, “Ska” e, para nosso delírio, “Alagados”. Daí não teve jeito. Eles foram realmente embora. As luzes foram acesas. As pessoas começaram a se retirar da quadra. O piso, antes lustrado, agora se mostrava enegrecido por uma gosma grudenta resultante de cerveja e refrigerante derramados sobre tubos e tubos de “lança” vazios — muitos colegas eram chegados ao tal volátil. Normalmente ficávamos esperando a primeira e mais impaciente leva de pessoas abandonarem a quadra se acotovelando ao subir as escadas entre as arquibancadas. Sentíamos os ouvidos surdos zumbirem fortemente, enquanto nos despedíamos uns dos outros. Assim foram os shows do Kid Abelha, dos Engenheiros do Hawaí, dos Titãs, entre outras boas bandas daquela época.

Hoje, o Verdão é amarelo, seu teto já desabou e foi reconstruído, mas não existem mais shows sendo realizados lá. Não sei se não há mais brilho na sua existência ou se simplesmente na nossa — assim como aquele magnífico estádio, não desfruto mais do viço daqueles tempos.


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