A chuva

Majestosas nuvens escuras trouxeram consigo a chuva. O calor diminuiu em parte. O cheiro da terra molhada invadiu maravilhosamente o ar. Uma “desvontade” invadiu o corpo. Não a indisposição de quem é avesso ao trabalho – não uma preguiça. Uma pausa ao corpo cansado, apenas. O barulho da água que pinga nas folhas das árvores me entorpece aos poucos. O turbilhão de obrigações que, em sequência, fervilhavam na mente vai perdendo sua importância. Contemplar é imperativo! A chuva é uma dádiva para o corpo e para a mente.
O cheiro é uma chave! Aos poucos a chuva com seus odores e sons avança na direção dos anos que há muito já se foram! Os relógios; tenho fascínio e respeito por eles. As gotas de chuva tocam o chão e o cheiro de terra molhada transfigura as formas do tempo. Vejo agora a água que molhava o chão em que pisava o menino que fui. Sutilezas; o cimento molhado que meus olhos observam são a terra em lama que a mente teima em reencarnar. Sinto, como se fosse agora, os pés descalços tocando o chão encharcado enquanto a lama escorre por entre os dedos. Não consigo lembrar a última vez em que me permiti um banho de chuva! O menino que fui desfruta daquela chuva repleta de raios e trovões; temia o barulho dos trovões, apenas. Esse menino e seus ‘coleguinhas’ corremos com os pés descalços, com o peito nu e a mente livre. Pulos, gritos se misturam aos pingos de água de sobem das poças de lama vigorosamente e prazerosamente pisoteadas. Prazer! Prazer ingênuo e necessário. As vozes das mães advertindo sobre os riscos daquele banho foram sempre ignoradas; sinto falta dessas vozes. O vento chicoteava a pele na companhia de um frio tremendo. Os dentes batendo uns contra os outros, não impediam o desfrutar daquela proeza pueril. A rua de terra, hoje asfalto, era um espaço para a traquinagem e para as bicicletas. Lembro das bicicletas! Aquele menino “tive” uma Monark verde muito” veloz”; eu era veloz. Aquela bicicleta adorava andar na chuva me conduzindo por roteiros cinematográficos da realidade melhorada pela imaginação. O pneu dianteiro cortava as poças de água. Quanto mais rápido maior era a quantidade de água espalhada. Quanto mais veloz mais forte a água batia no rosto. Era uma boa bicicleta! Foi uma bela chuva. Os punhos molhados daquela bicicleta com frequência se soltavam. Também os freios molhados não funcionavam muito bem. Foram boas quedas, mas ainda estou aqui. Onde está minha bicicleta? O papai reclamava que os cavalos-de-pau deixavam carecas os pneus. Aquele menino desconhecia o custo das brincadeiras. O papai pagava um pneu novinho sempre que necessário. Era uma boa bicicleta! Foi uma boa chuva!
A cidade era minha. Com suas ruas molhadas, com toda sua maravilhosa lama, com toda minha maravilhosa lama, com todos meus amigos, com meus pais e com minha chuva. Com MEU tempo! Meu tempo?
Um semáforo queimado na esquina. Uma moto colhida por um carro traz de volta um presente. Uma mulher grita no seu provisório leito de asfalto molhado. O presente não é um castigo; talvez uma dádiva com menos cores, odores e sabores. Apenas não tem as mesmas sensações do passado. Os sabores não são os mesmos. A primeira vez que provei ketchup, estava chovendo, o “vidro” era de vidro e possuía uma tampa de metal branca. Após aberto sempre aparecia um pouquinho de ferrugem na tampa. Pus num prato de arroz com feijão e ovos mexidos, foi na casa do pai do meu pai, o gosto ácido e adocicado era perfeito. Mudaram o ketchup ou mudou a língua. Aquele sabor; nunca mais o encontrei. A chuva continua. Era estranho, tomar banho após o banho de chuva. Sabonete para quê? A mamãe não perdoava. Tomar banho, lavar as orelhas, passar shampoo e tudo que reza um bom banho. As mãos enrugadas da água da chuva não seguravam direito o sabonete. A mulher continua gritando no seu leito de asfalto molhado, som medonho. Não aconteciam tantos acidentes na minha infância!
Mas o relógio é um golpista sorrateiro, de tic e tacs sucessivos e irreversíveis, subtraiu furtivamente toda minha infância, dilatou o abdômen e tingiu de cinza os fios do meu cabelo. Meu corpo não é mais tão veloz como naqueles dias de chuva.
Relógio inspetor, não seja tão austero!
— Já vou trabalhar!
— Já vou trabalhar!
Fui!





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