Faixa de pedestres
- Belfort Filho
- há 3 dias
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Faixa de pedestres
O semáforo vermelho irá tomar mais alguns minutos do tempo que já não disponho. Estendida à minha frente, a faixa de pedestres é o tapete para um sem-número de apressados anônimos. Existem momentos de contemplação em que o tempo se modifica para aprimorar a percepção, como que permitindo uma visão quadro a quadro de uma realidade que, de outra forma, passaria despercebida diante dos olhos, enquanto a própria realidade estaria parada.
Uma mulher franzina é a primeira a pôr os pés na faixa. Seus cabelos pouco arrumados entregam a dificuldade daquele momento; mulheres são vaidosas e esse pecado não pertencia àquela franzina. Enquanto anda, ela espirra e deixa cair um pequeno estojo. Suas mãos executam um balé de toscos movimentos ao tentarem avidamente não deixar o objeto cair ao chão; tudo em vão. Ela para abruptamente para colher os pertences caídos, permitindo assim a aproximação e ultrapassagem de um rapaz de mochila vermelha. Ele assume a liderança daquela corrida frenética.
O velocímetro do carro em zero, RPM em dois mil giros e o rádio desligado. A vida quadro a quadro continua.
Em flagrante desvantagem, uma senhora gorda inicia a travessia ao lado de um homem de terno preto; em pouco tempo, ela já fica bem para trás e, por alguns instantes, vira o rosto e me encara os olhos como que tentando perceber quanto tempo ainda eu lhe facultaria. Mas o homem de terno preto... O terno barato e puído, associado aos velhos sapatos pouco lustrados, entrega seu momento social e o que mostra não é nada bom. Ele certamente não está satisfeito com aquela rotina, fosse ela o que fosse, mas sua energia ainda lhe permite um belo desempenho naquela corrida. Rapidamente, ele chega ao lado oposto da rua, junto à mulher franzina que a pouco deixava cair seu estojo, porém, está ainda atrás do garoto de mochila vermelha.
Antes de chegar à outra margem da via de asfalto, o garoto de mochila vermelha avalia minuciosamente as curvas de uma garota muito “atraente” que inicia a mesma travessia, em sentido contrário. Sua roupa de ginástica, maravilhosamente colada ao corpo, deixa transparecer toda a juventude e voluptuosidade. Os movimentos são tão suaves quanto sinuosos e “teatralmente” sem objetivo, o iPhone conectado aos ouvidos por meio de fones brancos contrasta com a pele clara e certamente macia, enquanto os cabelos ondulam a cada passo. O garoto registra toda a biometria e atitude daquela garota nos 3,2 segundos em que passam um pelo outro. Ele ainda vira o rosto para contemplar a cadência dos movimentos erotizados dos glúteos, melhor dizendo, contemplando toda exuberância e forma da garota. Porém, o homem de terno se interpõe aos dois, impedindo, além de uma observação mais demorada, um encontrão com uma mãe que puxa um garoto de seis anos pelo braço direito. Um movimento rápido e garoto e acidente são evitados; o fluxo sobre a faixa continua caoticamente funcional.
A senhora gorda está na metade da corrida; sua roupa suada e surrada entrega muito além de um péssimo condicionamento físico.
O garoto de mochila vermelha e a mulher franzina já haviam sumido. Aquela mãe, por pressa, opta por colocar o moleque nos braços para acelerar o ritmo da travessia. A garota realmente tem uma bela silhueta posterior, sua travessia calma e seu aspecto tranquilo diferem de todos os outros anônimos estressados, colocando-a num plano mais etéreo.
O semáforo começa a piscar. Os sinais sonoros ocorrem agora em uma frequência maior. A garota não tem a menor pressa em concluir a travessia. A mulher gorda está quase a salvo no lado oposto. A vida é cheia de contrastes, mas poucos foram tão flagrantes quanto a percepção do momento em que a mulher gorda se encontra com a linda garota exatamente no meio da faixa, enquanto todos os outros olhos se voltam para a linda garota ou por desejo ou por inveja. Talvez seja um daqueles momentos em que o menos seja mais.
Engato a primeira marcha. Dou um toque no pedal direito aumentando o giro do motor para 3000 RPM. Confiro os retrovisores. Um motoqueiro filho da puta toca meu retrovisor ao tentar passar pelo corredor e, ao invadir o semáforo, quase atropela a mulher gorda. Outros anônimos apressam o passo. O carro atrás de mim já deu um toque na buzina fazendo a raiva subir e a frequência cardíaca aumentar. Sinal verde! É dada a largada. O giro dos motores sobe e a inércia começa a ser vencida! Mas surge uma retardatária distraída ou convencida que, ciente de seus direitos, muito tardiamente inicia a travessia, obrigando todos os competidores motorizados a travar o pé no freio vigorosamente. O motorista do carro de trás põe a mão na buzina após quase colidir comigo.
— Idiota, inconsequente, burra e feia! — alguém grita.
Ela chega em segurança ao passeio central.
O fluxo ruidoso dos veículos é retomado.





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