top of page

A madrugada pela janela

  • Foto do escritor: Belfort Filho
    Belfort Filho
  • há 3 dias
  • 3 min de leitura

A madrugada pela janela

 

Os tempos eram outros. Tempos em que a paz e as estradas permitiam viagens noturnas demasiadamente tranquilas. Tempos em que os ônibus interestaduais possuíam janelas com cortinas que podiam e deviam ser abertas durante as viagens. O ar da noite entrava por essas janelas em rajadas de vento frio que faziam tremular fortemente as cortinas de tecido grosso.

O saudosismo daquelas viagens me reencontrou pelo olfato, o ar que entrava trazendo consigo o cheiro do mato e da terra e massageava meu rosto. Eu contemplava a lua em um ponto distante no céu, porém ela habitava uma posição bem próxima ao horizonte; minha companheira no céu da noite teimava em nos acompanhar a distância, refletindo seu brilho prateado na paisagem noturna. O barulho maravilhosamente monótono do motor a diesel do ônibus libertava a mente e me permitia, em pensamento, penetrar nas diferentes realidades que eu observava ao longo da estrada.

Viajo agora pelo tempo! Pequenas casas no meio do nada se mostram em pequenos pontos de luz fraca que, no meio da madrugada, eu quero acreditar que sejam de lamparinas. Vez por outra, um solavanco me tira daquela pequena moradia pouco iluminada no meio do mato e me recoloca na poltrona do ônibus. Nada de grave, alguém nas poltronas lá da frente tosse, alguém nas poltronas traseiras murmura alguma reclamação enfadada.

Encosto novamente o rosto na coluna da janela para receber de frente o vento com cheiro de mato e de terra. À frente, um caminhão bastante carregado torna necessária a redução da velocidade. Se junta ao cheiro do mato e da terra o cheiro do diesel que emana do escapamento do caminhão. O som do motor em sofrimento mecânico transforma a percepção. Coloco-me, então, ao lado do solitário caminhoneiro que dirige com bastante sono, enquanto pensa no filho que deve estar dormindo confortavelmente em seu tão distante lar. Sinto o ônibus acelerar e ultrapassar o caminhão daquele solitário caminhoneiro. Muitos suspiram com alívio, como fosse aquele um momento clímax de suas existências. O cheiro do diesel desaparece do buquê aromático da estrada, os cheiros da terra e do mato se tornam novamente adornos olfativos daquela paisagem.

Fecho temporariamente os olhos e me concentro nos cheiros. A ladeira foi relativamente longa e o cheiro do freio aquecido do ônibus mostra que o motorista se dedicou bastante ao pedal do meio naquele trecho. O firmamento põe à minha direita o Cruzeiro do Sul, que ao longo da noite progressivamente vai inclinando para a direta.

Assustado, abro os olhos e sinto o rosto gelado e o nariz dormente. Dormi por meia hora, perdi meia hora do espetáculo noturno da estrada. A madrugada está fria e o vento agora emana o aroma de bosta de vaca. Eu deveria dizer esterco, mas o menino que fui não conhece esse nome. Bosta de vaca, esse é o termo. Esse cheiro sempre despertou em mim lembranças maravilhosas da infância, associadas às vacarias do lugar onde cresci e das fazendas que visitei. O ônibus diminui a velocidade e vagarosamente passa a se desviar de inúmeras vacas que birram em permanecer deitadas exatamente no meio da estrada; um e outro animal se levanta com parcimônia, a balançar os chocalhos de latão pendulares em seus pescoços. A sinfonia dos chocalhos das vacas passa ao lado da minha janela e, aos poucos, fica para trás, assim como o saudoso cheiro de bosta de vaca.

O vento, então, remodelou o cenário sensorial do olfato e encheu fortemente o ambiente de fumaça. As caieiras deixam no ar uma neblina baixa de uma fumaça branca e pesada, a sequela de uma atividade necessária a quem depende do carvão para viver. O cheiro de fumaça de caieira marca o fim da madrugada na estrada. O cheiro maravilhoso das caieiras de beira de estrada se soma ao discreto clarear áureo do horizonte. A lua me abandona sem que eu perceba e o sol empurra uma série de transições de luz e calor, de atenção e torpor. Com o rosto recostado na janela e o sol avisando surgir no horizonte, permito-me, enfim, adormecer, enquanto o ônibus avança na estrada de volta ao presente.

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page