Vereda do Meio
- Belfort Filho
- 20 de fev.
- 8 min de leitura

Vereda do Meio
A reminiscência é de 1991, julho de 1991, para ser mais preciso. Somávamos sete garotos, um deles meu irmão, nos dirigindo a um recanto nos arredores de Castelo do Piauí, chamado “Vereda do Meio”. Até então desconhecia a existência de uma pequena serra naquela região do estado. Meus dezoito anos tornavam qualquer empreitada promissora. Apinhamo-nos confortavelmente numa caminhonete F1000, modificada com ar-condicionado e vidros fumê, de Teresina a Castelo do Piauí curtindo o som de Raul Seixas — “Ei, Al Capone, vê se te emenda, já sabem do teu furo, nego, no imposto de renda!”. Até que alguém apareceu com uma fita K7 de uma banda local chamada de Trombetas do Apocalipse. Essa banda foi marcante nas nossas vidas, pois dos cinco integrantes, quatro se encontravam ali.
O conforto do veículo trouxe, em pouco tempo, um torpor leve quase que evoluindo para um sono, não fossem os comentários de como poderiam ser melhoradas as músicas. Também surgiu um jumento que teimou em atravessar a pista logo à frente da caminhonete obrigando o motorista Luís Carlos a executar uma manobra brusca para não colher o animal — demos sorte, nós e o animal.
Em Castelo, paramos numa quitanda, onde seu Milton — dono da fazenda que iriamos visitar — pediu ao vendedor “uma rede de varanda e um cobertor grosso daqueles de cor cinza com uma tarja vermelha” para cada um dos sete garotos. Caí na besteira de querer ajudar dizendo que já havia trazido de casa meu lençol.
— Você já foi a minha fazenda? — questionou seu Milton.
Como respondi negativamente, ele inteirou:
— Então, cale sua boca!
Fui alvo de sorrisos rasgados para os outros seis. Seu Milton, que já havia mandado carregar de vários mantimentos a carroceria de uma caminhonete “tipo rural”, pediu também para pôr pouco mais de um litro de uma cachaça de alambique num garrafão plástico.
Abastecidos, partimos então na carroceria de madeira da rural por uma estrada complicada rumo à fazenda. Salvo uma confusão mental, a rural era movida a gás de cozinha, mas nas subidas era necessário passar para a gasolina para ganhar um pouco mais de força. Quase meio-dia, um calor brutal me fazia questionar a opção do seu Milton. Para que um cobertor de lã no Piauí? A idade devia estar lhe comprometendo o raciocínio. Com o peso da carga, de tempos em tempos, o pneu roçava a carroceria fazendo subir um cheiro forte de madeira queimada. Buracos e pedras faziam o veículo jogar para todos os lados; a diversão estava começando! O suor descia pelo rosto magro, retendo a poeira da estrada. Logo surgiu um colar de “grude” embaixo do queixo. Uma vegetação seca ladeava a estrada, me fazendo temer os dias por vir. Seriam alguns dias no cangaço ou coisa parecida.
De solavanco em solavanco, chegamos à fazenda. Diferia do resto da estrada por apresentar-se menos seca; algum verde me trouxe um pouco mais de serenidade. Não esqueço o cheiro maravilhoso da fazenda! Fazendas cheiram a bosta de vaca. Adoro o cheiro das fazendas. Fomos direto para uma pequena piscina onde o calor foi prontamente esquecido. Próximo à piscina, ficava uma fonte que jorrava uma água maravilhosamente morna a qualquer hora do dia ou da noite, e tudo ficava ao lado de um enorme açude de águas geladas e repleto de “jacarés comedores de patos”, diziam. Não demorou muito, fomos chamados para o almoço. Na realidade, um banquete regado a um feijão com toucinho de porco, cozidão de costela de boi com quiabo, abóbora, macarrão com corante, arroz, farinha, farofa, ovos fritos, potes de rapadura, jarra de garapa de cana e um molho de pimenta. Meus dezoito anos adoraram aquela mesa. O cozinheiro era um homem com trejeitos afeminados e um cabelo vermelho longo e arrepiado, tostado de sol, que frequentemente era alvo de chacotas; era um cozinheiro de mão cheia!
— Ponha pimenta nessa comida — me falou seu Milton.
Outra besteira, fui dizer que não gostava de pimenta!
— Não perguntei se você gosta de pimenta, disse para pôr essa pimenta na sua comida e misture para eu ver! Anda, coma!
Hoje vejo que seu jeito duro era uma fachada para se divertir e divertir a todos. Sinto falta daquele velho! Mas aprendi a gostar também da danada da pimenta, ela acompanhou todas as outras refeições que fiz naqueles dias. Terceira besteira: seu Milton soltou um peido durante o almoço e fui inventar de sorrir!
— Está sorrindo de quê, garoto? — encarou-me por cima da armação marrom de seus óculos e voltou a comer serenamente.
— Parece que nunca ouviu ninguém peidar — resmungou olhando para o próprio prato, enquanto “rasgava” em alto e bom som outro “gás nobre”.
Usei o termo peido por não haver outra palavra que transpareça “a magia do momento” com plena fidelidade para a sequência dos eventos, se é que existe magia em tal ação. Flatos são ciência e são impessoais, peidos são “sentimentais”.
O tempo passa de forma diferente na fazenda, pois ao meio-dia estávamos em Castelo; já havíamos feito muita coisa, entre elas, descarregamos a caminhonete, e não passava das três horas da tarde. Mas de uma coisa eu tinha certeza: aquele cobertor de lã era algo totalmente sem propósito.
Voltamos à piscina e brincamos bastante até umas cinco horas da tarde. O calor já não se fazia tão presente. Eu podia sentir uma brisa suave e refrescante no caminho de volta à casa do seu Milton. Ao pôr do sol, estávamos de camisa regata, chinelo e bermuda. Às dezenove horas, estávamos de camisa de manga, calça comprida e chinelos. Às vinte horas, estávamos congelando!
Comecei a aceitar que seu Milton estava certo, o cobertor de lã talvez fosse necessário. Às dezoito horas, havia entrado em funcionamento um pequeno motor a diesel, o qual sustentava um gerador de eletricidade que mantinha acesas as luzes da casa. A algazarra dos pássaros já tinha acabado e ao longe somente era ouvido o barulho martelado do pequeno motor — tuc, tuc, tuc... Ele estava conectado a uma caixa d’água de amianto de quinhentos litros de água, por meio de duas mangueiras verdes, responsáveis por sua refrigeração.
Às vinte e trinta horas, passamos pelo curral das vacas cujo piso era forrado por bagaço de cana moída com o objetivo de chegar a um local onde alguns homens se dedicavam à produção de rapadura e batida de cana. O trabalho era noturno para evitar o amontoado de abelhas. No caminho era possível sentir uma camada de uns vinte centímetros de ar gelado sobre chão. Nunca entendi aquilo. Fazia um frio tremendo, mas essa camada de ar era muito mais gelada e deixava dormentes os nossos pés. Disseram que, por baixo do bagaço, era comum encontrar cobras e escorpiões. Havia suspense a cada passo.
Ficamos em frente a um enorme forno com o objetivo de aquecer as mãos para tentar aguentar o frio cortante, enquanto observamos aqueles trabalhadores mexendo enormes tachos de garapa fervente. Conversávamos pouco e observávamos muito, era possível ouvir o estalido da lenha queimando no forno, somado ao chiado do caldo de cana fervendo nos tachos.
Às vinte e uma horas fomos chamados para dormir; em breve desligariam o gerador. Acomodamo-nos em nossas redes, enrolados naquele cobertor cinza com tarja vermelha. Às vinte e duas horas, o motor parou e o silêncio encheu nossos ouvidos. Todos acomodados em suas redes, que foram postas lado a lado no alpendre da casa, armadores não faltavam. De tempos em tempos, ouvíamos alguém buscando uma posição mais confortável, tentando fugir do frio.
O silêncio da noite no meio do mato é algo ensurdecedor. Permite-nos ouvir o ar passando pelas narinas. Mas fomos salvos por um grilo que cantava, oculto em algum lugar próximo. Quando a primeira raposa uivou no meio da noite, o coração quase saiu garganta afora, achei que fossem lobos! Lobos no Piauí? Coisas do medo. Do meio da escuridão, surgiu um senhor com idade avançada, creio, pois apresentava uma farta cabeleira branca impecavelmente penteada. Estava envolto em uma manta vermelha e se aproximava de nossas redes.
— Estão usando o cobertor do jeito errado, “seur minino”! Falou com voz bem calma. Ponham por baixo do corpo, o frio da rede entra por baixo! E foi embora como chegou, sem apresentações. Fizemos o que o velho de cabelos lisos e brancos nos disse. Embora o frio tenha diminuído, os pés teimavam em querer congelar. Mesmo assim o sono se mostrou mais vigoroso e dormi pesadamente até as quatro horas da manhã, aproximadamente. Os pés gelados não me permitiam mais o sono. Uma vontade tremenda de urinar não podia ser satisfeita; não tinha coragem de sair da rede e encarar o frio. Mas como o frio aumentava a vontade urinar, não teve jeito. Saí da rede e fiz meu xixi ali mesmo, à beira do alpendre e corri de volta para a rede.
Às cinco horas da manhã, estávamos todos acordados buscando qualquer nesga de sol para nos aquecer, quando surgiu um homem esquálido pedindo “o cafezinho” para seu Milton. Sua alcunha era “Besouro” e o café era uma dose daquela cachaça comprada a granel no dia anterior. Seu Milton disse que somente teria café se ele mergulhasse no açude e trouxesse o jacaré que estava comendo os seus patos. Fomos ao açude acompanhar a presepada. O tal Besouro tirou as calças imundas e a camisa rasgada, deixando aparecer um corpo cuja gordura estava totalmente guardada dentro dos ossos. A cueca frouxa teimava em “escorrer” até os joelhos. Então se pôs à beira do açude a contemplar a névoa acima dele. Por alguns instantes, cheguei a duvidar da coragem do homem, mas ele mergulhou e voltou tão rapidamente que nem sei se conseguiu se molhar de fato.
— Não achei o bicho não, seu Milton. Deve estar lá no fundo — afirmou enquanto saía d’água.
Vale descrever que o açude, àquela hora da manhã, possuía um aspecto cinematográfico. Estava recoberto por uma neblina forte de uns quarenta centímetros de altura que não permitia que a água fosse vista. Acreditem, vi o Besouro nadando em um lago gélido às cinco horas da manhã em troca de uma dose de cachaça. Já o nosso café da manhã veio tão ou mais farto que o almoço do dia anterior. Cuscuz de milho, cuscuz de arroz, ovos mexidos, ovos fritos no leite de coco, queijo de coalho, leite mugido, manteiga, pão, bolo de sal, bolo doce e algumas outras coisas, que liberavam um aroma que, junto ao eterno cheiro de lenha queimada, gerava um “bouquet” olfativo maravilhoso. Após esse banquete, fizemos uso de umas espingardas de ar comprimido, o objetivo era acertar os jacarés no açude. Mas dos jacarés somente os olhos e a ponta do focinho ficavam fora d’àgua; os chumbinhos disparados ricocheteavam várias vezes na água até perder a força e afundar no açude. Ninguém acertou o olho de jacaré algum! Mas tentamos realizar o feito em todos os dias da viagem.
Existia à época um microsystem da Gradiente que levamos para ouvir uns rocks gravados em algumas fitas K7, mas que acabou tendo uma finalidade menos nobre. Gravamos doze minutos de peidos homéricos, todos sucedidos por sequências enormes de risos rasgados. Muitos anos depois, nos flagramos a ouvir a tal fita K7, para reivindicar as autorias de cada timbre resultante daquela ópera intestinal. Sempre no meio da manhã, eu dedicava um tempo a uma breve leitura do livro intitulado “O Colecionador”, cuja capa tinha uma enorme borboleta azul e a outro livro de nome “O feijão e o sonho”, porém esse tempo era relativamente curto, afinal um cochilo nesse ínterim era uma obrigatoriedade necessária. Numa das noites, um dos moradores se dedicou a uma empreitada pueril, mas que afinal foi divertida. A criatura pegou uma abóbora, retirou seu miolo e cortou de tal forma a conseguir uma cabeça “à la Halloween”. Ele pôs uma vela acesa dentro e saiu correndo do meio do mato, gritando como um louco; a ideia era pregar susto nos “meninos da cidade”. Na realidade, não deu muito certo. Ele apenas conseguiu arrancar de nós boas gargalhadas. Assim se passaram os sete dias na Vereda do Meio, numa repetição maravilhosa de fatos e flatos, além de uma alegria e liberdade maravilhosas. O tempo, mago incompreendido da existência, mais uma vez, escrevendo sua história no livro de nossas mentes!





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