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Bicho-papão

  • Foto do escritor: Belfort Filho
    Belfort Filho
  • 29 de jan.
  • 5 min de leitura

Bicho-papão

 

A aparente normalidade é, muitas vezes, a melhor forma de camuflar uma adversidade existencial e esse disfarce encontra, frequentemente, acolhida na expectativa que todos têm de encontrar o natural; “normalmente vemos o que almejamos ver”. Dizem que a vida de qualquer um daria um livro. Mas certamente existem livros que são mais intrigantes que outros e o que vou contar me foi narrado pela personagem principal de uma dessas vidas. Neste momento, sinto a necessidade de informar que, à época, eu atuava como odontólogo de um posto de saúde da zona rural. Por motivos óbvios, vou manter em segredo o nome da localidade, afinal o nome é que faz o fuxico. A tarde do final de outubro apresentava o calor característico do período. Calor, poeira e suor compõem um conjunto não tão atrativo para quem trabalha em um consultório minúsculo, refrigerado tão somente por um ventilador de pé em agonia mecânica terminal. O atendimento ao primeiro paciente ocorreu dentro da expectativa de normalidade; a aparente normalidade se concretizou como verdadeira normalidade!

O segundo paciente “foram” três! Uma simpática senhora morena veio acompanhada de duas crianças, ambas com idades próximas aos dois anos. Nada de surpreendente, a mãe agenda seu atendimento e “aproveita” a oportunidade para, contando com a “boa vontade do doutor”, dar uma olhadinha na boca dos seus filhos. Observei, pela ficha clínica, que aquela senhora que aparentava ter uns trinta e três anos, tinha nada além de vinte e oito. Pedi à morena sorridente que se acomodasse na cadeira odontológica. Foi nesse exato momento que a normalidade do dia começou a abandonar o recinto. Faltou energia elétrica e, na impossibilidade real de atendimento, começamos a conversar sobre trivialidades.

Eu havia deduzido que as crianças, dois meninos, eram gêmeas. A idade era seguramente a mesma, mas os rostos apresentavam não uma semelhança! Os dois meninos apresentavam verdadeira identidade fisionômica, sobretudo, o rosto. A foto 3x4 de um certamente serviria para o outro, não fosse o fio de secreção esverdeada que teimava em escorrer da narina esquerda de um deles. Em certo momento, perguntei à simpática morena se eram gêmeos.

Entenda, amigo leitor, existem perguntas que são feitas para se conseguir a certeza efetiva para uma quase certeza e aquela era uma dessas ocasiões. Contei com a resposta positiva à minha pergunta e recebi uma negativa maliciosamente imersa em amistoso e enigmático sorriso. Gosto de perceber as deformidades do tempo em função dos fatos e o fato deformador foi o conjunto das explicações que comecei a ouvir. Apesar da semelhança física, os dois meninos não eram gêmeos. Um deles era o filho e o outro era neto daquela morena de vinte e oito anos; embora realmente possuíssem a mesma idade, o menino da secreção esverdeada era dois dias mais novo que o outro.

A surpresa me reconduziu a minha realidade. Aos trinta e três anos de idade, meu primeiro filho ainda não passava de um incerto projeto matrimonial. Imediatamente me pus a conjecturar as idades em que mãe e filha haviam tido seus respectivos primogênitos sem, no entanto, ter conseguido chegar a alguma conclusão aceitável. A jovem mãe-avó, percebendo a minha inquietação, antecipou que a filha foi mãe antes dos quatorze anos de idade.

O cérebro tremelicou aqui dentro e concluiu que também a mãe-avó deva ter sido mãe com idade semelhante à idade da filha-mãe. Se algo pode ser dito, acredite, é que a parte fácil de ser compreendida da história já se foi. A mãe de vinte e oito anos acresceu à narrativa um punhado de informações de atinada relevância.

A primeira informação é que o menino da secreção esverdeada escorrendo pela narina era o tio do outro menino e, até esse momento da narrativa, não haveria complicação, pois o filho da mãe, desculpem a contundência do termo, seria naturalmente o tio do filho da filha por ser esse também irmão da filha.

A segunda informação despertou terror imediato. Ela afirmou que os dois meninos eram também irmãos; temi ouvir alguma atrocidade praticada pelo pai. Posso, no entanto, trazer ao leitor algum alívio prévio à absolvição plena do pai e esposo da simpática morena sorridente.

Dois anos e dez meses passados aquela mãe havia conhecido o Tonho da Quitanda, homem que, segundo ela, não apresentava como ponto forte a beleza física. Mas o que faltava em estética, sobrava em virilidade e, sobretudo, em lábia. Por temer cometer alguma injustiça, não farei menção alguma à quantidade de vezes que a morena se referiu aos dois caminhões que o Tonho da Quitanda possuía, nem aos “regalos” com que ele frequentemente a presenteava.

Então, me proponho a transcrever fielmente o que ouvi; nem mais, nem menos. O marido da mãe-avó saía todos os dias às quatro horas da manhã para trabalhar na roça e somente retornava com o cair da noite. Em um desses intervalos, o homem da quitanda apareceu à sua porta com o pretexto de pedir uma quarta de café. Ora, um dono de comércio não ficaria sem café em casa. Esse pensamento correu à mente da morena como fosse um rastilho de pólvora na direção do paiol e ela se sentiu desejada e sentiu o desejo arder dentro de si. Na cozinha, enquanto pegava o café, sentiu o perfume de lavanda que o homem da quitanda usava. Foi inevitável a comparação desleal com o cheiro forte do marido trabalhador braçal. Ainda na cozinha, o Tonho da Quitanda pôs a mão em sua cintura e levou-a sem a menor resistência para o quarto, estabelecendo uma rotina socialmente questionável para suas manhãs. Não nego que a naturalidade da narrativa me levou a um ambiente desconfortável; eu não sabia como me portar em frente àquela criatura.

A terceira informação, apesar da previsibilidade, não trouxe menor perplexidade. A filha da morena, com então treze anos de idade, devido a maior frequência de visitas, passou a receber mimos do comerciante que objetivava, a princípio, o seu silêncio. Assim como a distância é inimiga férrea dos relacionamentos, a proximidade tende a fermentar o gostar e a menina passou a gostar da presença do homem da quitanda em sua casa. Não tardou para o Tonho descobrir dentro da menina a mulher que acordava a cada mimo recebido e estabelecer outra rotina de luxúria.

A quarta informação não veio. Não sei se houve conivência ou negligência por parte da morena, mas as duas engravidaram do mesmo homem. O comerciante amante era agora o pai do filho de sua amante morena e também pai e avô padrasto do filho da filha da morena.

Suspirei, sorri algumas vezes e tudo não passava de uma real incapacidade de adotar uma postura que estivesse em conformidade com seriedade dos fatos. Mesmo assim, ainda veio a quinta informação. O marido traído descobriu sua honra ferida em duplicidade. Esposa e filha defloradas pelo mesmo homem; pior foi saber que tudo aconteceu no seio do seu lar por três meses consecutivos sem que nada percebesse. O ódio turvou o pensar do pobre homem que esbravejou aos ventos anunciando algumas mortes. Os amantes morreriam certamente e sua honra seria assim lavada, essa era a promessa.

Dois anos e dez meses depois, a quitanda do seu Tonho continuava funcionando de domingo a domingo. A morena e sua filha se revezam nos cuidados ao tio e sobrinho de dois anos de idade; todos moram ainda na mesma casa sustentada pelo marido, que agora usa colônia Phebo de Alfazema e retorna todos os dias para casa na hora do almoço.

Ah, quase esqueço! A energia elétrica retornou ao consultório bem a tempo de dar continuidade ao tratamento odontológico da intrigante família.

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