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O vigia e os "trombadinhas leprosos"

  • Foto do escritor: Belfort Filho
    Belfort Filho
  • 13 de jan.
  • 7 min de leitura

 

A essência da criatura humana habita um lugar móvel, que muda conforme o olhar de quem observa — nuances que percebemos vez ou outra. Posso dizer que tudo aconteceu na Rua Áurea Freire durante uma Semana Santa que ocorreu entre os anos de 1996 e 1999; perdoem-me a imprecisão.  Gosto de contemplar o nascer do sol seja na cidade ou à beira-mar, embora tenha especial apreço pelo segundo. O relógio ainda não acusava as sete horas da manhã quando resolvi passear pela rua.

Afirmo que nesse período do ano e horário as ruas se faziam extremamente desertas e o silêncio humano era um convite à contemplação. Passarinhos cantando, vez ou outra o fraco vento chacoalhava as folhas das árvores e tudo não continha os sons das tecnologias ou superficialidades das gentes — eu gostava do conjunto.

Meu corpo vestia uma camisa de malha velha que, tendo sido preta em outros tempos, à época, ostentava um cinza surrado.  Era uma daquelas peças confortáveis demais para sair de casa, já em avançado processo de autodestruição. Fazia uso, também, de uma bermuda “jeans” igualmente surrada pelo muito tempo de serviços prestados e esse conjunto se completava por chinelos de dedo velhos que já possuíam confortavelmente as formas dos meus pés. Foi assim que me pus para o lado esquerdo da rua objetivando a praça localizada no quarteirão seguinte, porém lá não cheguei.

Quando passava em frente à casa do Doutor Edvardo e de Dona Helane — uma casa de esquina —, eles estavam viajando por destinos ignorados por mim, um senhor que aparentava ter não menos que cinquenta anos me saudou amigavelmente.

— Dia! — falou acenando junto com a cabeça.

Acho importante descrever um pouco daquele senhor que concluí estar como vigia da residência. Ele aparentava pele morena, certa robustez física e austeridade que eram reforçadas pela presença de um facão que ficava acomodado em uma bainha de couro junto ao cinto que sustentava suas calças velhas; uma presença bruta que seria facilmente encontrada nas páginas de Guimarães Rosa, exceto por não utilizar camisa naquele momento específico.

Quero que entendam: Existem súplicas que são feitas sem muita verbalização! Aquele momento encerrava uma súplica não verbal de um homem rústico e certamente pouco letrado. Vamos mergulhar no conjunto dos sentimentos — certamente não seriam ideias — que fervilhavam à mente daquele senhor. 

Como uma das pagas ao ofício de vigia, por aqueles dias, sua companheira mais presente era a solidão. Mesmo o homem curto sente vontades sociais vez ou outra. O mesmo silêncio que me enchia de satisfação contemplativa era o algoz que transformava a percepção do homem com facão. Segundos se transformavam em minutos, minutos em horas, horas em dias e os dias eram convertidos em eternidades de solidão pronunciada. E, repito, isso não eram ideias; apenas sentimentos!

— Bom dia! — respondi cordialmente à sua saudação enquanto me aproximava já prevendo a conversa que certamente implementaríamos na sequência. Porém, decidi que competiria a mim dar continuidade ao bate-papo; sua saudação já encerrava grande esforço de comunicação. Fui, no entanto, surpreendido:

— O senhor acorda cedo! O povo daqui acorda tarde nesses dias.

Falou isso enquanto fingia ajustar algo na fechadura do portão. Aqui se manifesta, talvez, algum toque de aflição do homem bruto. Concluiu precipitadamente que eu não interromperia a marcha em direção à praça; esse foi o sentimento e não uma ideia.

— Sempre gostei de acordar cedinho — engrenei em definitivo a conversa enquanto me aproximava mais daquela criatura. — Gosto do clima e do cheiro do ar da manhã. Considero que as pessoas desperdiçam muito da vida ao acordar tarde. O que fiz não foi caridade, menos que isso, foi uma sequela da ausência de obrigações.

— Justamente — ele respondeu.

A conversa então tomou o rumo dos temas simples, relacionados à natureza ou a algumas rotinas de menor interesse. Assim fiquei sabendo que o casal proprietário da residência tinha como destino a cidade de Piripiri, onde ficariam por toda a semana. Imaginei o enfado e responsabilidade de se vigiar uma casa vazia por sete dias e sete noites. Porém, algo que vi me levou a pensar em outra coisa.

O homem apresentava manchas pelo corpo, principalmente nos braços e pernas — manchas que me intrigaram profundamente. Confesso que, depois dessa observação, pouca atenção dediquei às palavras truncadas que ele a mim dirigia.

Naquele momento surgia o conflito entre Deus e o diabo! Pelo bem, eu deveria eu abdicar da curiosidade e voltar a atenção à conversa. Mas não foi o que aconteceu. A curiosidade é um verme vigoroso: quando se instala, corrói a prudência e fermenta o atrevimento. Não podendo conter o verme, perguntei:

— Mestre, essas manchas que o senhor possui na pele, o que são? Elas são meio dormentes?

— Olhe, moço, o senhor está no rumo. Essa doença acabou comigo. Sou mais homem não. Antes dela, fui homem “pra” todo serviço e tinha a força de um boi.

Tentei segurar minha língua, mas falhei.

— Você sabe o nome da doença que teve?

— Sei não, moço, é um nome esquisito que não consigo falar — disse e fez uma pausa.

A resposta inquietou ainda mais o verme. Minha curiosidade somente não foi superior ao atrevimento, irmão gêmeo da primeira. Imaginei que, por um lampejo de autoproteção, aquele senhor estivesse apenas encobrindo o nome da patologia temendo alguma rejeição minha. Venceram a curiosidade e o atrevimento:

— Hanseníase? — perguntei mantendo a maior serenidade possível no olhar, apesar de fazer uso de alguma autoridade postural. Para o meu alívio, a resposta daquela pessoa saiu tão naturalmente quanto a forma com que ostentava seu facão.

— Essa aí, mesmo moço! Acertou de novo! O senhor é doutor?

— Não! Ainda não — respondi, aliviado com sua atitude. — Estou ainda na faculdade de Odontologia. O senhor está se tratando?

— Já tratei! Disseram que terminei! Passei um ano tomando remédio. Tomei “comprimidinho” que, se emparelhar, vai daqui em Timon. O médico me disse que fiquei curado e disso não morro nem pioro, Graças a Deus! Mas não sou mais homem “pra” nada! Quem me olha não sabe. Seguro o facão com a força de uma mulher. Sou mais homem não!

— Que isso? Está aí ganhando seu sustento de forma correta. Então é homem sim!

Tentei dessa forma amenizar o quadro lastimável que me foi pintado pelo vigia e acredito ter conseguido, pois um ar de leve satisfação surgiu no rosto daquele homem; pelo menos tentei me convencer disso. Talvez essa minha atitude fosse uma tentativa interior de me redimir pelas ações menores e pouco dignas dos vermes gêmeos. Alguns instantes se seguiram sem que muito, ou nada, fosse dito. Mergulhei nos sinais e sintomas daquela patologia, bem como nas perspectivas de futuro daquele senhor. Ele, por sua vez, passou a me observar com certa admiração pelos conhecimentos em saúde.

Isso foi tempo suficiente para surgir na esquina oposta à que eu me encontrava um bando de criaturas ameaçadoras. Contavam entre vinte e trinta jovens, meninos e meninas maltrapilhos e muito sujos, a marchar em minha direção. Calculei que à minha casa não conseguiria retornar antes de ser alcançado pela horda.

— Acho bom o moço ficar perto de mim — falou o vigia como que adivinhando minha intenção. — Aqui não vão mexer com o senhor! — Dito isso, fez silêncio, adotou um ar grave e não mais tirou os olhos do grupo.

Aquele vigia adotou uma surpreendente postura de protetor enquanto pôs a mão sobre o facão. Imaginei a conversa que segundos antes havíamos tido. Embora debilitado pela doença, ele não pouparia esforços frente aos delinquentes que vinham em nossa direção. Embora a saúde tivesse abandonado aquele corpo, as atitudes de pai de família honrado permaneciam.

O bando era surpreendentemente grande tomando a rua de lado a lado. Vinha como uma ameaçadora onda a percorrer um estreito canal. Eram meninos ainda, apesar de incorporarem a postura de homens, que andavam deitando seus pés descalços ao chão com calma e um certo atrevimento o ameaçador em seus movimentos. O que falavam eu não pude entender, mas zombavam certamente uns dos outros. Empurravam-se e trocavam agressões de baixa belicosidade enquanto vinham na minha direção. O cheiro de cola de sapateiro chegou antes deles. Muitas daquelas criaturas em condição deplorável carregavam em suas mãos garrafas pet cheias do referido entorpecente.

Quando chegaram mais perto, foi possível observar seus sorrisos de dentes podres, quando estes estavam presentes, ostentados ao ar sem escrúpulo algum. Meninas em suas imundas roupas curtas, prostituídas e viciadas, marchavam com a mesma postura atrevida dos meninos. Duas delas carregavam no ventre bebês e ostentavam despreocupadamente as barrigas roliças de uma maternidade castigo; miséria sem solução de continuidade. Mais perto ainda o odor desagradável da sujeira e do conteúdo das garrafas “pet” se fundiu ao cheiro ruim dos corpos maltratados. A horda escorria rua abaixo.

Quando enfim nos alcançaram, a maioria diminuiu o tom de escárnio com que marchavam e, com certo grau de desconfiança, passaram a avaliar nossa presença em seu caminho. Não nos temiam! Os dois rapazes mais velhos intencionalmente passaram a conversar entre si em tom mais elevado. Suas vozes malandramente nasalizadas e arrastadas puderam ser mais bem compreendidas. Apontaram para mim fazendo menção ao relógio que eu carregava no braço; objeto de nenhum valor efetivo. Apesar do dito, senti que tudo não passava de intimidação gratuita. Não se dedicariam ao fim anunciado. Aquelas almas compreendiam a contabilidade da violência e do lucro, e lucro algum encontrariam em mim. Onde estava, permaneci. Menos temor que lamentação foi o que senti. Quantos estariam vivos ao findar do ano? Em que ambiente nasceriam os bebês daquelas meninas? Nasceriam?

O grupo virou à direita na esquina e se foi. Com eles também o odor desconfortável foi se esvaindo até desaparecer por completo. As vozes em arruaça foram aos poucos sumindo. Fiquei com os olhos fixos no chão, perdido entre divagações imprecisas sobre as diversas sensações que me invadiram. Não eram ideias; eram, em sua maioria, sensações ruins e, quase sem pensar, balbuciei sem propósitos:

— Quanta vida perdida, meu Deus!

Aquele vigia prestativo inspirou e expirou pausadamente enquanto encarnava uma expressão muito séria e com forte carga de reprovação. Tirou a mão do facão, espichou o beiço inferior à frente do superior, como se fosse fazer um bico, enquanto franzia a testa aproximando uma sobrancelha da outra. Pensou mais um pouco como que avaliando até onde poderiam chegar suas opiniões. Inspirou profundamente, pôs-se mais ereto do que o instante anterior e falou com impressionante autoridade e eloquência:

— Doutor, esses daí são como um bando de leprosos! Deveriam desaparecer com eles da face da terra! (...)

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