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São João na Rua das Flores

  • Foto do escritor: Belfort Filho
    Belfort Filho
  • 9 de fev.
  • 6 min de leitura
São João na Rua das Flores
São João na Rua das Flores

 

Eu era menino em meados dos anos oitenta e o mês era junho. Tudo que eu queria era fazer uma fogueira naquele dia. Era cerca de três horas da tarde quando fui dar uma volta pelas ruas do bairro, procurando madeira para alimentar minha primeira fogueira. Curiosamente, quase nada havia de conotação com as festas juninas. O período era apenas uma justificativa para eu fazer uma fogueira. A Rua das Flores, minha rua, era coberta por um seixo bastante grosso. Muitas pedras arredondadas, do tamanho de ovos de galinha, recobriam toda o chão. Elas rangiam sob nossos pés e faziam um enorme barulho quando algum carro passava — felizmente poucos carros passavam por ali naquela época.

Também havia muitos terrenos não murados, cheios de mato. Micos, tucanos, pássaros diversos, cobras e escorpiões faziam parte do cenário de nossas brincadeiras. Quando chovia, a Rua das Flores se transformava em um enorme rio por onde a água descia forte, fazendo a felicidade dos meninos que éramos; não era esgoto ainda, era apenas água das chuvas. Porém, em junho, não havia chuva e eu desejava fazer uma fogueira.

Andei por diversos terrenos e encontrei muitos troncos secos de árvores há muito caídas. Alguns eram pesados demais, a outros dediquei muito esforço para arrastá-los para frente da minha casa. É importante dizer que minha casa ficava exatamente no centro; das sete casas, a minha ficava no centro vindo de qualquer esquina da rua. Minhas mãos ficaram cheias de bolhas do ofício de arrastar os troncos. Após algumas viagens, meu irmão, o Dudu, veio me ajudar e uma curiosa onda de eventos teve início.

Uma vizinha nossa, a Cristiane, viu-me montando a fogueira e disse que iria fazer umas bandeirinhas com umas revistas velhas e barbantes que tinha em casa. Não dei muita importância àquela iniciativa; era pura estética feminina. Continuei montando a fogueira e, alguns minutos depois, a Cristiane e o seu irmão, o Halisson, surgiram com a primeira linha de bandeirinhas de São João. Começamos a subir nos muros e nos postes para armar a decoração junina e, como um vício, outras linhas de bandeirinha foram se somando à primeira.

Minha mãe, vendo toda “arrumação”, foi tomando gosto pela coisa e disse que ia fazer um mugunzá para comermos em frente à fogueira. Esse foi o primeiro momento em que senti o clima de festa junina aflorar. Confesso, fiz uma pilha de madeira enorme da qual me orgulho até hoje. Chamava mesmo a atenção de quem passava. Àquela época, não havia problemas com roubos e a violência urbana habitava tão somente as cidades da região sudeste. Nossas casas ficavam com os portões sempre abertos e existia um livre fluxo de meninos entre as sete casas da rua. Então a “Tia Teresina do Seu Rodrigues”, pais da Cristiane e do Halisson, vendo as bandeirinhas se multiplicarem enfeitando a rua e o amontoado de madeira do que viria a ser a fogueira, foi até minha casa falar com a mamãe — a Dona Raimundinha. Então, foi mais uma a “pegar gosto pela coisa” dizendo que ia fazer um creme de galinha e, creio, que um bolo de milho.

As mães da Rua das Flores eram dedicadas ao lar e, por consequência, “pilotavam” muito bem seus fogões. O Eduardo Neto, filho da Dona Ana Rosa e do Seu João Benedito, se juntou ao grupo. Ele se dedicou a juntar capim seco e arbustos para facilitar o acendimento da fogueira; também correu para dentro de casa para conseguir mais papel para aumentar o número de bandeirinhas para o poste. A Dona Ana Rosa surgiu à porta para saber que movimentação toda era aquela em nossa rua. Ela também entrou casa adentro e foi falar com minha mãe. A Dona Ana Rosa nos informou que iria fazer uma paçoca e uma bacia de pipocas. Entre minha casa e a casa do Eduardo Neto, ficava a casa do seu Valdomiro, assim como o papai, professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI).

Aqui se faz necessário quantificar os meninos da Rua das Flores. Na minha casa éramos quatro: eu (Carlinhos), o mais velho, e meus irmãos Dudu, Fred e Neném.

Na casa da Tia Teresinha e do Seu Rodrigues — ele também professor da UFPI — encontramos a Cristiane, o Halisson e o Harley.

No lar do seu Valdomiro e da Dona Fátima — Lili, Evandro e Serginho.

Na casa do Seu João Benedito — médico: Eduardo Neto, Renata, Rômulo e João Filho.

Na esquina, a “Dona Teresinha da esquina” tinha o Cleyson.

Na outra esquina, o Seu Vitorino e da Dona Graça tinham o Leandro, Carlinhos da esquina, Pablo e Alice. Caso alguém tenha se dedicado à contagem, foram apenas seis casas. À esquerda da minha casa, moravam o Seu Filadelfo e a Dona Raquel, mas não tínhamos muito contato à época com seus filhos: Flávia, Thiago e Helena. Era um exército de crianças que faziam da rua um formigueiro pueril.

A Dona Fátima do seu Valdomiro, somente no finalzinho da tarde, foi falar com a mamãe para tomar ciência dos eventos previstos para a noite. Mesmo assim, preparou “dindim” de sabores diversos para “o arraiá”! O papai — seu Belfort — apareceu franqueando o som para animar a quadrilha; era um som três em um, de muita potência, da Sanyo. Aos pais ficou destinado o “paitrocínio”, pois, quando souberam da festa, se cotizaram para bancar as cervejas, refrigerantes, traques, “peidos de véia” e outras necessidades básicas, típicas das festas juninas. Nem mesmo eu poderia imaginar que a simples iniciativa de fazer uma fogueira fosse fermentar e tomar tais dimensões. Às dezoito horas e trinta minutos, apesar de exaustos, tínhamos conseguido pôr diversas mesas e cadeiras à porta de casa, isopores com gelo, cervejas e refrigerantes. O som do papai ficou no terraço e as caixas perto dos dois largos portões da garagem. Não havia receio, ninguém furtaria nada naqueles bons tempos. Mas faltava apenas um único detalhe antes de tomar banho e me arrumar: acender a fogueira! Na realidade, meu objetivo inicial era ver arder a pilha de madeira duramente edificada durante a tarde.

Peguei algumas folhas de jornal velho, amassei caprichosamente e acomodei junto aos galhos secos que o Eduardo Neto havia colocado sob os enormes troncos. Risquei o fósforo e pus a chama sobre um cantinho das folhas retorcidas do jornal. Fiquei por alguns minutos observando a chama crescer das folhas de papel para os gravetos. O fogo crescia causando estalidos à medida que avançava sobre os troncos de madeira, lançando faíscas que rodopiavam enquanto subiam para o céu e o cheiro bom da fumaça invadia minhas narinas. Não sei precisar quanto tempo demorou a contemplação, mas a mamãe apareceu advertindo para tomar banho o mais brevemente possível e que não deixasse o corpo esquentar demais; eu não poderia tomar banho com o corpo quente! Fui correndo tomar banho e colocar uma roupa para a festa junina improvisada.

A noite caiu, seu Luiz Gonzaga saiu dos alto-falantes do som Sanyo, dando cor e clima ao ambiente. O fogo alto conferia um tom amarelado vibrante a todas as demais cores. Tudo parecia tremular sob a luz alaranjada da fogueira. Os vizinhos começaram a chegar, primeiro os filhos — afoitos pela folia — depois os pais. Com os filhos, chegaram os estalinhos de salão, traques, estrelinhas e bombinhas e, com esses, o cheiro de pólvora se juntou ao buquê olfativo típico das festas juninas; cheiro de fumaça de fogueira, cheiro de pólvora, cheiro de milho assado, cheiro de carne assada em espetinhos e cheiro de pipoca.

Começamos a correr sentindo as pedras do seixo deslizarem sob nossos pés, a tomar refrigerantes para matar a sede e a encher a barriga com os diversos pratos que estavam sobre a mesa. Bombinhas e traques estouravam para todos os lados, contribuindo com o som da sanfona do “Seu Luiz”. Um dos meninos, o Eduardo Neto, estava pondo uma haste longa de madeira para queimar a ponta na fogueira. Quando ficava em brasa, ele girava a haste no ar fazendo-a rugir, deixando uma esteira de fagulhas ao vento. Em uma das voltas, ele acertou meu pescoço em cheio com a ponta da haste ao rubro. Senti mais o impacto do que o calor. A agilidade da juventude faz seus milagres, felizmente nenhum dano, exceto uma mancha de carvão na camisa que eu havia acabado de vestir; a festa continuou sem novos incidentes.

Olhando para o passado, me vejo parado no meio da rua, observando tantos rostos sorridentes presentes naquele evento maravilhosamente improvisado. Crianças gritando e correndo sob o olhar descontraído, porém vigilante, dos pais. Os mesmos pais conversavam entre si enquanto tomavam suas cervejas e desfrutavam os petiscos colocados à mesa. Seus rostos estampavam a satisfação das famílias construídas e a possibilidade de desfrutar daquela comemoração.

Alguém jogou uma pedra na fogueira fazendo centenas de fagulhas subirem sinuosamente ao céu como se fossem vagalumes namorando sob a luz da lua. Gosto de lembrar que aquela fogueira ardeu por quatro dias consecutivos.

Mas o fogo apagou e até o nome da rua mudou. As pedras de seixo deram lugar ao calçamento, que também já cumpriu sua função e se encontra sob grossa camada de asfalto. As crianças cresceram, seguiram seus caminhos e não mais existem crianças correndo na antiga Rua das Flores.

Alguns dos sorrisos que refletiam a luz da fogueira já não mais estão entre nós. Os portões estão sempre fechados, os marginais tomaram conta da nossa cidade.

Os muros estão altos demais.

Os muros estão altos demais!


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