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Frivioca no Rejeito

  • Foto do escritor: Belfort Filho
    Belfort Filho
  • 26 de jan.
  • 3 min de leitura

Frivioca no rejeito

 

 

Estava eu no “azulão” — ambulatório do Hospital Getúlio Vargas —quando um senhor veio na minha direção e, respeitosamente, retirou seu chapéu de palha da cabeça recostando-o sobre o peito enquanto fazia um cumprimento de cabeça:

— Senhor, eu queria verter água!

À época, minha mãe traduziu a informação incompreendida por mim; o senhor precisava ir ao banheiro e eu precisava entender aquele regionalismo. Assim iniciei meu convívio com graciosas expressões alheias ao meu cotidiano. Na realidade, creio que não exista um falar correto ou errado! Talvez exista o falar errado no lugar certo ou quem sabe, caetaneando um pouquinho, talvez exista o avesso disso tudo, mesmo que ninguém conheça a verdadeira essência de tudo isso.

Dessa forma, me deparei com a história de uma senhora que apresentava um estranho ferimento na face, que continha alguma crosta de difícil identificação que ela chamou de “popatapatai”.

— Popatapatai é um remédio milagroso no sertão do Ceará, doutor!

Meu Deus, o que seria popatapatai? Seria algum tipo de “piula-conta” moderno? Um longo processo investigativo permitiu a maravilhosa descoberta de que popatapatai seria na realidade anaseptil pó! Entenda que popatapatai é igual a anaseptil pó e isso pode ser “facilmente traduzido”, afinal um corte pode, sem problemas, ser chamado de talho e, por algum tipo de derivação regressiva, a palavra talho passa a ser pronunciada como “tái”. Pelo mesmo processo, creio, a palavra “para” se transmuta em “pra” e em seguida em “pa”, no bom dialeto sertanejo. O sertanejo é antes de tudo um “econômico” e economiza até nas letras que não fala. Para esse sertanejo o verbo tapar possui uma letra excedente. Tapar pode ser apenas “tapá”. Então anaseptil pó é, na realidade, um “pó para tapar talho”; simples assim!

Sei não! Mas esse esforço mental me deixou com uma “dor dicutilante” terrível! Conheci essa nova categoria de dor quando fazia PSF na zona rural do vizinho estado do Maranhão.

— Dotô, tô cum dô “dicutilante” na presa, dá pá aterrá? — perguntou-me uma senhora bastante maltratada pela rotina rural e que, lamentavelmente, veio a perder o dente em questão.

Minha graduação me permitia restaurar dentes, mas me permitiria “aterrar” dentes? Perguntei à simpática e truculenta senhora o que seria uma dor “dicutilante”. Ela me respondeu maravilhosamente e sem dizer uma única palavra enquanto fechava e abria os olhos repetidamente como as luzes intermitentes dos enfeites natalinos, franzindo a testa com cara de dor enquanto intercalava movimentos curtos de pinça com indicador e polegar da mão direita próximo ao local do dente— entendi então que dor dicutilante é dor pulsátil. Nossa, estava eu me embrenhando pelas “dificulidades” do português rural quando a mesma senhora me vem questionar se “dava pa distraí o dente com dô de andaço”! Danou-se, mais uma dor que eu desconhecia. O que seria a tal “dor de andaço”?

— É diarreia, doutor!

Essa foi mais fácil. Mas tenho um consolo, não vago sozinho por esse ambiente de regionalismos obscuros. Uma colega de trabalho afirmou ter atendido um paciente com dificuldade locomotora associada à perna esquerda. Ao questionar o paciente, a resposta veio de pronto:

— É “rama” doutora!

Tal foi sua surpresa ao descobrir que “rama” é derrame; o paciente sofrera um acidente vascular cerebral alguns meses antes daquele encontro. Mas ele não estava procurado atendimento pela “rama” e sim por um problema no “pé do pente”. Na realidade, o “pé do pente” corresponde à região pubiana — assim como a “cantareira” corresponde à clavícula — e aquele paciente desejava tratar de uma coceira no “pé do pente”.

Bem, outra colega de trabalho foi a responsável direta por despertar em mim os sentimentos que me levaram a escrever sobre esses regionalismos. Ela me narrou a história de um paciente, supostamente diabético, que desejava contornar certo inconveniente. Sua queixa principal era a de uma “frivioca no rejeito”. Não nego, a sonoridade dessa expressão me cativou antes mesmo da curiosidade sobre o seu significado. Naquele caso, especificamente, o paciente apresentava um ferimento no tornozelo que não cicatrizava de forma alguma. Todavia, o maior incômodo estava associado a um forte formigamento no tornozelo. Caetano estava certo! Não existe o verdadeiramente certo ou totalmente errado e, mesmo que exista, nada importa, pois o que importa é a essência e a beleza da comunicação. E entenda que formigamento no tornozelo é, em bom sertanejês, sinônimo de “frivioca no rejeito”. Assim iniciei uma magnífica viagem por regionalismos que enriqueceram meu vocabulário, embora tenha despertado algum “farnizin no juízo”. O que significa isso? Você vai ter que descobrir.


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