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Água de Coco

  • Foto do escritor: Belfort Filho
    Belfort Filho
  • 21 de jan.
  • 4 min de leitura


 

Ou a curiosidade me é um defeito inato que não consegui reparar até então ou a vida teima em me apresentar “causos” tão mirabolantes que poderiam aparecer na trama de uma tela de TV. Uma terceira opção, no entanto, surge como anti-inflamatório para minha autocrítica. Gosto de pensar que sou excelente observador e pronto! Gosto mais de mim assim! Então, vamos aos fatos.

Começo pela difícil missão de correlacionar uma volta de “bike” com uma complicada investigação de paternidade, e logo em um domingo à tarde.

Como de costume, gosto de pedalar nas tardes desse dia da semana, tanto pelo prazer do ato como pela necessidade de manter a forma física. Não nego que, em tais momentos, marco sorrateiramente um encontro comigo mesmo; um momento de solidão para conversar com o eu que se esconde quando outra pessoa se aproxima. Sozinho, a cada pedalada, converso comigo sobre mim, sobre a criação dos meninos, traço objetivos imediatos e a longo prazo, revejo algumas atitudes tomadas durante a semana e, o mais importante, me perdoo por algumas falhas, incluindo desejar algum instante de solidão. Assim, os quilômetros vão se somando até que fique seca a boca.

Também sou metódico! Sempre levo algum dinheiro para tomar dois cocos em algum momento do percurso; oito reais, sete reais para os dois cocos e um real como margem de segurança para eventualidades inflacionárias. Parei em um quiosque à margem da ciclovia e pedi o primeiro coco para a vendedora. Ela era uma mulher morena e relativamente descuidada com a aparência. Compreensível condição para uma mulher que ostentava uma barriga por volta dos oito meses de gestação. Confesso que a blusa “baby look” manchada e amarrotada, o curtíssimo short jeans desfiado pelo uso ou pelo “estilo” e os inchados pés desconfortavelmente acomodados em chinelos de dedo cor de rosa, com uma imensa flor amarela presa próximo ao dedão, em nada me chamaram a atenção. Mas o diálogo que a moça iniciou com sua interlocutora me surpreendeu — sim, havia uma terceira pessoa no local. Peço que não me culpem pelo que não fiz! O quiosque possuía duas mesas de metal com três cadeiras vermelhas cada uma. Eu havia me sentado na cadeira que ficava à sombra. Ouvir o emblemático diálogo foi consequência tanto da posição geográfica das quatro almas que éramos quanto do imprudente atitude das duas moças que conversavam como se distassem quilômetros uma da outra.

O formigamento mental que me afetou teve início quando a interlocutora questionou se a gestante já sabia quem era o pai da criança em seu ventre — “o pai de tchôminino”! A pergunta veio a mim como um beliscão imposto por um pai ao filho desatento. Como assim? A mulher desconhecia o pai da criança que habitava o seu ventre? Embora eu estivesse com as costas para as três almas do quiosque de cocos, senti como se minha orelha esquerda girasse em cento e oitenta graus na direção da conversa, bem a tempo de ouvir parte das explicações. A mulher gestante afirmava que, durante uma determinada comemoração de que ela havia participado vendendo cocos, entre outros produtos, o “Chiquim dos espetim” e o Cleverson “tinham bulinado com ela” e que, para completar, ao chegar em casa, o seu então marido “ainda veio querer fazer saliença”! Não nego que meio gole da água de coco quase verteu pelo caminho errado quando a moça considerou seu relacionamento com o marido uma “saliença”! Qual seria o adjetivo atribuído ao intercurso com o cidadão do espetinho?

A percepção do tempo é algo relativamente magnífico. Como parasse o tempo, imaginei a criança na barriga da mãe, de cabeça para baixo, roendo as unhas enquanto esperava o desfecho da história para, enfim, descobrir a identidade do seu verdadeiro pai. Imediatamente, lembrei que tal vivente, por ainda não possuir os dentes, resignou-se a chupar o polegar da mão direita com os olhos fechadinhos, em uma tentativa desesperada de acalentar sua curiosidade. Também me preparei para imaginar o que passou pela mente de uma mãe que, entre tantos aceitáveis nomes, opta por chamar o próprio filho de Cleverson, mas não consegui. A amiga da futura mãe perguntou algo sobre o cunhado. Entenda que a imagem do ansioso bebê a questionar a identidade do pai havia me deixado um pouco desatento, mas não a ponto de perder toda “surrealidade” daquele diálogo. É certo que a gestante fora casada em algum momento da vida e o cunhado dessa amiga que agora conversava com a prenhe foi o estopim de sua separação, devido a um caso amoroso que ocorrera uma semana depois dos eventos com o Chiquim dos espetim, o Cleverson e a “saliença” do agora ex-marido.

A curiosidade é uma frieira, quanto mais mexe mais coça. Faltava a mim algum detalhamento para o pleno entendimento de toda aquela conversa novelesca, afinal eu estava de costas para as três almas, mas não faltou o pretexto. Eu precisava ver a expressão no rosto de tão fogosa criatura que carregava no ventre uma alma tão aflita, e ela ainda me devia o outro coco. Assim, ergui-me e pedi o segundo coco. Fiz isso e encontrei no rosto da mãe fogosa incrível expressão de serenidade e naturalidade apesar de todos os fatos que a tinham como personagem central de uma história absurda.

Retornei à mesma cadeira para tomar o coco e continuar a ouvir o restante da conversa. No entanto, vários instantes de silêncio se seguiram. Pensei que talvez uma centelha de bom senso fosse a causa do silêncio que agora nos envolvia. Pensei que, talvez, tivessem finalmente percebido que poderia eu ter ouvido alguma parte do drama conjugal — se é que isso pode ser dito. Mas pensei também que elas pudessem ter lido na minha atitude a dimensão da minha curiosidade, tão sedenta por um desfecho digno para os eventos — essa última possibilidade me deixou constrangido. Porém, cri mais nela que nas anteriores. Acreditei tão fortemente que, de tão envergonhado, findei as atividades com o coco, peguei a minha “bike” e, com enorme frustração, ia retomar minha atividade. Mas, como um gole de água que escorre pela garganta quando se tem sede, ouvi a interlocutora perguntar o que a “buchuda” iria fazer para saber quem era o pai da criança.

— “Mermã”, sei lá! Quando nascer, vou ver se descubro pela carinha dele!

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