Panfletagem
- Belfort Filho
- 8 de jan.
- 4 min de leitura
Atualizado: 19 de jan.

PESSOAS SÃO PESSOAS e existem de todas as formas e índoles. As índoles são segredos escondidos tão profundamente que nem mesmo o dono de uma conhece sua real essência. Já as formas são como cartões de visita que, quando expostos aos olhos de terceiros, se submetem ao crivo de quem olha. Pessoas são assim; não me compete julgá-las.
Uma vida é feita de momentos e momentos são caracterizados por fatos.
O fato que me ponho a relatar ocorreu durante os breves instantes de espera em um semáforo fechado. O sinal vermelho é sabidamente um momento de comunicações e angústias. Não dedicarei tempo algum a narrar as angústias daqueles que precisam voar em seus veículos e, em franca frustração de suas necessidades, encontram os semáforos no vermelho. Então, passemos às comunicações! Vendedores de castanhas, camelôs e suas tecnologias piratas, jovens novatos pagando trotes por seus ingressos recentes em faculdades, malabaristas e tantas outras criaturas compõem “a fauna” que habita os semáforos fechados. Deixei um grupo para o final e não foi por esquecimento! Aqui está o fato! No cruzamento absurdamente demorado das Avenidas Homero Castelo Branco e João XXIII surgiram duas almas panfletando; ambas mulheres.
Peço que entenda como relevante o seguinte: não é fácil panfletar em meio a carros com vidros fechados que “protegem” condutores tão assustados quanto antissociais. O ato de panfletar torna-se, então, uma missão quase impossível! As duas mulheres a que me referi são também integrantes da “fauna semafórica”, porém, com características bem distintas uma da outra. A primeira surgiu para o mundo com alguns atributos que a colocavam em vantagem para a empreitada assumida. Possuía um metro e sessenta e oito, salvo engano. E, se me engano, possuía um metro e setenta. Seus cabelos, lisos ou alisados, caiam loiros até próximo à cintura. Cintura que, por sinal, lhe conferia graciosa forma e realçava os movimentos sinuosos de seus quadris a cada passo. Não digo que fossem perfeitas as suas pernas, eram ligeiramente valgas. Mas encerravam formas com resultantes predominantemente harmônicas e, até mesmo, desejáveis — peço perdão pelo atrevimento. À distância, não pude perceber detalhes de sua face, mas sei que ostentava um sorriso fácil. Creio que seja relevante dizer: a blusa amarela curtíssima revelava um lindo umbigo à altura dos olhos da maioria dos condutores. A segunda mulher, por sua vez, existia. Nos tempos em que não devemos julgar um livro pela capa e que se deve comer apenas o que for verde e, também, nada deve ser dito que não um sim; a segunda mulher existia, apesar da forma. O físico teórico e cosmólogo britânico Stephen William Hawking possui riquezas que, para serem compartilhadas, devem ser buscadas “além da casca”. Contudo, a casca não deixa de ser um obstáculo à semente. Assim era a segunda mulher! A atitude, parte integrante e não dissociável da casca, era o que a tornava invisível aos olhos dos motoristas. Sua altura orbitava em torno de um metro e sessenta e dois, salvo engano. E, se me engano, possuía um metro e sessenta. Seus cabelos, ondulados ou embaralhados, edificavam um coque assimétrico e desengonçado que ficava preso em algum ponto de “sua cucuruta” por meio de uma caneta BIC. Sua cintura, não a encontrei! A blusa excessivamente folgada impedia a visão de qualquer coisa que não fosse parte de uma calça visivelmente borrada de marrom na perna direita. Os pés, em chinelos de dedo estranhos, deixavam bem visíveis seus calcanhares rachados e enegrecidos pela fuligem do asfalto. À distância, não pude perceber detalhes de sua face, mas sei que jamais sorria. Creio que seja relevante dizer: a blusa, não mais tão amarela, talvez necessitasse de uma lavagem e de um ferro de passar.
Uma atitude cruel não é necessariamente cria de uma alma cruel. Não encaro aqui o papel do causídico. Um bom homem pode tomar atitudes cruéis mais por desatenção que por perversidade. Quando percebi, pela primeira vez, as duas mulheres, trabalhavam ambas no mesmo ofício de entregar panfletos aos motoristas retidos no semáforo daquele cruzamento, porém, em colunas diferentes de carros. A mulher sorridente cumprimentava graciosamente os motoristas da coluna da direita com enorme êxito em sua empreitada. A mulher sisuda “cutucava” os vidros dos carros da coluna esquerda e o fracasso era a tônica de suas investidas. Não por maldade e sim por distração, talvez, e apenas talvez, os motoristas devam ter ignorado a segunda mulher em função do sorriso da primeira. Quem sabe?
Porém, “sobrevive quem possui capacidade de se adaptar”. A competição pode ser uma opção, embora nem sempre seja a melhor estratégia. Em outro momento, mais uma vez retido no trânsito daquele cruzamento, estavam lá novamente as duas mulheres. Não com o mesmo posicionamento geográfico de antes. A exitosa mulher sorridente ia à frente abrindo os vidros dos carros com seu sorriso e umbigo graciosos. Por sua vez, a mulher sisuda, e agora adaptada à seleção natural dos fatos, vinha em sequência se aproveitando dos vidros agora abertos dos veículos.





Comentários