A Velha Corcunda
- Belfort Filho
- 7 de jan.
- 3 min de leitura
Atualizado: 21 de jan.

Eis que me ponho a lembrar de uma senhora corcunda que costuma passar pelas redondezas. A curvatura acentuada na porção superior de sua coluna forma um considerável monte por sobre sua pá direita — escápula — e a obriga a voltar eternamente a face para o chão enquanto anda. Não bastasse tal mazela, outra lastimável curva de sua coluna a entorta fortemente para a esquerda. Pobre senhora, pênsil para frente e para o lado e o lado ainda tinha que ser o esquerdo? Terrível anatomia vertebral, certamente deve impor à coitada enorme sofrimento físico. Penso também na perna esquerda da coitada. “Zambeta” dessa perna — creio que seja esse o nome —, essa senhora possui o joelho esquerdo voltado para dentro como se teimasse em “cutucar” o joelho direito a cada passo. Coitada, empenada para frente e para o lado esquerdo, precisa apoiar a mão esquerda no joelho torto para não tombar de vez a cada passo.
Desconheço sua idade, embora a face sofrida transpareça estar na casa dos sessenta e poucos anos. Sempre a vi deambular lenta e sofregamente entre a casa onde mora e um comércio da redondeza, seja sob o forte sol da capital, seja equilibrando um guarda-chuva com seu braço direito; ela nunca sorri. A fragilidade daquela criatura de Deus era uma certeza que eu possuía até poucos dias, quando, ao retornar de algum comércio da região com uma pequena sacola de plástico azul translúcido na mão direita, aquela senhora sem prumo se deteve a olhar atentamente para a lixeira de uma das casas que ladeava seu percurso. Após alguns instantes, pôs-se freneticamente a forçá-la em todas as direções. Mesmo a distância, a força surpreendente daquela senhora foi sentida pelo suporte metálico da lixeira. Forçava para frente, para trás, para a direita e para a esquerda. Forçou uma vez e mais outra, sem intervalos, forçou mais algumas vezes sem lograr êxito. Naquele dia, a expressão enfurecida e frustrada que percebi em seu rosto era indescritível. Desistiu! Recobrou a marcha lenta e torta de volta ao lar.
Quis eu conhecer o sentimento que habitava o coração daquela alma enquanto investia contra a lixeira do “vizinho”; não consegui. Passei a acompanhar as excursões daquela senhora pela rua; curiosidade mórbida, talvez! Aos sábados, sempre aos sábados, ela investia sua força e ira contra a lixeira do vizinho. Por que aos sábados? Não descobri! A velha perfazia o caminho de domingo a domingo, porém somente aos sábados sua fúria se manifestava. Os dias se seguiram repetindo a rotina de fúria sabática, até o momento em que a lixeira não mais suportou e, rangendo metalicamente, capitulou por sobre a calçada. Percebi o prazer indizível que surgiu no seu rosto como resultado de seu investimento mecânico. A velha corcunda dedicou trinta e poucos segundos a contemplar o desfecho de sua obra da mesma forma que um algoz aprecia a vítima sangrar em seus últimos momentos. Olhou para um e outro lado da rua, recobrou a postura assimétrica, apoiando a mão esquerda sobre o joelho valgo e lentamente retomou o caminho de casa. Há quem diga que não existe sofrimento que não seja merecido, há quem diga que existem injustiças do destino. Mas também existem aqueles que nada dizem. Posso dizer, contudo, que não mais existe lixeira naquela calçada e que, aos sábados, retornando de sua peregrinação, ela, a velha corcunda, em movimentos circulares, fricciona o pé direito duas ou três vezes no cimento que agora ocupa o orifício da haste metálica quebrada da antiga lixeira e, simplesmente, vai embora. Pode ser imaginação minha, mas quase consigo perceber o canto esquerdo de sua boca curvar para cima como se de lá fosse nascer um sorriso. Não sai! O terreno é estéril! A face inerte e sofrida da velha corcunda reaparece no caminho de casa.





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