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Em um Banco da Avenida

  • Foto do escritor: Belfort Filho
    Belfort Filho
  • 7 de jan.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 12 de jan.

COISAS DA IDADE! Tênis, short e camisa leve para começar mais uma caminhada. Menos prazer que obrigação; o ofício maçante é uma necessidade do corpo quarentão. Seis quilômetros em um percurso de um e meio quilômetro, que comecei exatamente pelo meio. A ação é intencional, não gosto de começar pelo início nem de terminar pelo final. Hoje comecei indo para o lado direito. Não será assim na próxima vez.


Alonguei a perna esquerda para contornar uma tal de “canelite” e comecei a pensar. Pensar para andar! Tanta gente dedicada ao mesmo e maçante ofício. Tanta gente fazendo a mesma coisa com objetivos tão distintos! Muitos, como eu, andam sozinhos na proteção da coletividade. Procuro saúde e, também, matar minhas curiosidades; artifício necessário ao consumo do tempo. Olho para tudo e para todos, assim, no meu silêncio e quietude externos, faço deduções na tranquilidade dos meus passos. Outras pessoas andam ostentando o corpo bem desenhado contido justa e precisamente em malhas caras, enquanto escolhem seus possíveis futuros relacionamentos; a natureza é assim. Alguns ostentam chaveiros de carros caros, competição intragênero, enquanto profetizam futuras aquisições financeiras e “conquistas” sexuais; a natureza é assim. Porém, muitos conversam quase a mesma coisa em todos os dias de caminhadas. Vomitam a monotonia azeda de suas queixosas rotinas; a sociedade é assim. São importantes informações que capto durante os dois minutos e meio necessários para as ultrapassagens de meus passos ritmados.

A menina dos dois cachorros já aponta na cabeceira da pista. Para trás, fezes fresquinhas de seus animais que não vão ser recolhidas; algumas pessoas são assim.

— Olá! Caminhando? — fui surpreendido pela pergunta.

Sorrindo, balanço a cabeça afirmativamente pensando na obviedade fútil da pergunta. Uma necessidade social, que eu certamente entendo, aceito e frequentemente pratico.

— É o jeito, é jeito! — respondo e dou continuidade à minha marcha.

Um quilômetro em nove minutos; esse é o meu objetivo. Sinto o coração levemente acelerado e o suor me escorre da testa. Estou conseguindo manter um bom ritmo. Com smartphone preso ao braço esquerdo e fones nos ouvidos, uma morena de corpo escultural passa por mim em leve trotar; uma linda mulher. Carnes firmes, todas no lugar, e medidas certas. Os longos cabelos presos em um rabo-de-cavalo bem-posicionado no alto da cabeça balançam em sinuoso e sensual movimento a cada passo. Ela observa um pretendente que galopa em sentido contrário. Coitada, nem percebe que ele é um concorrente! O jogo é assim!

Mas um odor forte de suor me invade desconfortavelmente as narinas. Imediatamente me ponho a buscar a fonte. O cheiro ruim não pertence àquele ambiente de tão francas ostentações. Provavelmente não deve ser do cara que vai adiante com tênis Nike e camisa Lacoste. Dificilmente seria de uma das três lindas mulheres que percebo vindo em minha direção; o vento sopra em sentido contrário. Mas, quase ao meu lado, em um banco do passeio da avenida Raul Lopes, descubro a fonte de tão intenso e desagradável cheiro. Um homem jovem, creio eu, mas, de tão sujo, não me atrevo a opinar sobre sua idade. Descalço e sem camisa, ele usa somente uma bermuda de tecido grosso e “ensebado” que parece ser parte da crosta que o recobre. Cabelos muito sujos e fortemente emaranhados no topo da cabeça se uniriam a sua barba, não fosse ele imberbe; possui apenas um pequeno e sujo tufo de pelos na ponta do queixo. Mas, incrivelmente, tudo que ele ostenta no rosto é um sorriso de dentes podres.

O odor se enfraquece com a distância. Meu Deus, que vida! Aquele sorriso é fruto certo da insanidade ou entorpecimento químico. Descuidei da marcha; continuo minha caminhada com a mesma aparente indiferença de todos. Aquele ser em derrocada sorria para o céu como se conversasse com Deus. Será que a fome faz morada em seu estômago? Fim da primeira parte do trecho. Faço a curva na cabeceira da avenida e volto. O sol já se pondo permite o acendimento automático da iluminação pública. A transição da luz natural para a artificial é estranha; as cores nem são vivas nem mortas. Não enxergo tão bem, tampouco enxergo mal. Percebo que me aproximo novamente daquela figura em ruínas; o odor não nega. Sou arrebatado por uma curiosidade mórbida e não intencional. Não consigo tirar os olhos daquela alma. Definitivamente, ele não conversa com Deus, creio que não, ele sorri para o céu e para o chão. Prefiro pensar que não conversa com Deus para não crer que também ele possa conversar com o Diabo. Ele conversa com o ar e sorri para sua amante em forma de lata de cola. Meu Deus! Uma existência profundamente entorpecida e destroçada por uma maravilha do ofício de sapateiro.

Porém, nem tudo que tal homem ostenta é passividade. Notei, caída ao chão, próxima de seu imundo pé direito, uma faca de cortar carnes. A faca sim, esta apresentava uma lâmina em aço límpido e cabo em plástico preto. Ela, a faca, repousava serenamente ao chão, longe de qualquer ímpeto afetivo de seu proprietário; por enquanto.

Mas olho com relativa discrição, não me agrada pensar que ele possa perceber minha inquisição. Não gosto de belicosidades. O fétido odor daquele ser diminui mais uma vez. A distância entre nós aumenta. Nessa passarela de existências, a distância entre nós só aumenta!

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